Eu sou o silêncio da poesia
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 07 de Março de 2026 ás 09h 27min
Eu sou tecida de letras soltas
um alfabeto em fuga
que nunca encontrou a linha certa
para formar a palavra inteira.
Sou um dicionário aberto
onde as páginas tremem
e as definições se misturam
num sussurro de possibilidades não ditas.
As sílabas tropeçam
na minha língua invisível
um ritmo quebrado, um compasso esquecido
tentando encaixar o som no silêncio.
Eu sou a pausa longa
entre o desejo e a realização
o espaço em branco
que a caneta hesitou em preencher.
Há um vazio em mim, sim
não um buraco, mas uma vastidão
como um céu noturno sem estrelas fixas
apenas a promessa de luz que ainda não chegou.
Este espaço vazio
é o meu jardim secreto
onde as raízes não se prendem ao solo
e as flores nascem de um ar rarefeito.
É nesse não-lugar
que a minha essência se revela.
Um eco sem fonte.
Uma cor sem pigmento.
Sou a margem que se afasta do texto
o verso que se recusa a rimar
a pontuação que se perdeu no vento.
E é nesse estranho desarranjo
nessa beleza incompleta
que reside a minha melodia.
A falta me molda
o erro me define.
O vazio não é ausência,
mas sim a capacidade de conter tudo.
Eu sou a poesia
nascida da não-conexão
a gramática do quebrado
que, por não se encaixar,
encontra sua própria forma perfeita
neste espaço aberto
onde as letras, finalmente,
podem apenas ser.