Eu sou as cinzas
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 19 de Março de 2026 ás 10h 19min
Eu sou as cinzas
sopro leve e escuro
de um fogo que se apagou
no recanto mais fundo do ser.
Partículas finas
memórias antigas e quentes
que a respiração interna
já não podia sustentar.
Eu era o resíduo
o pó do que foi chama
a prova irrefutável
de uma combustão passada.
Presa no silêncio denso
do meu próprio vazio
esperava, talvez,
a inevitável dissolução.
Até que veio
o sopro vasto e frio
o hálito do desconhecido
que não julgava, apenas movia.
O vento das alturas
chegou sem aviso,
sem pressa calculada,
como um gigante benevolente.
Ele não me varreu com fúria,
não me dispersou em desespero.
Ele me encontrou ali,
na pequena depressão da existência.
E então,
o acolhimento suave.
Não um aprisionamento,
mas um transporte.
As cinzas que eu era
foram levantadas, não jogadas fora.
Erguidas ao azul infinito
onde o peso se desfaz.
Senti a leveza
de ser carregada sem esforço,
parte de uma corrente invisível
que soprava para além do horizonte visível.
O vento me tornou nuvem
me fez parte da jornada etérea,
um murmúrio suspenso
entre o céu e a terra esquecida.
Eu sou a poeira no percurso do ar,
o segredo que o alto carrega,
o fim que se torna passagem,
o acolhido pelo sopro eterno.
Não mais confinada ao chão,
mas dançando na correnteza fria,
a cinza que encontrou no vento
seu novo e vasto lar.