Eu Peço Silêncio

Ensaios | | Luciana Kelm
Publicado em 24 de Março de 2026 ás 17h 50min

Como mãe de um adolescente com Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1), aprendi que o sangue do meu filho não é a única coisa que exige controle; as palavras que ouvimos do mundo também precisam de limites. No dia a dia da nossa jornada com o Matheus, enfrento um inimigo tão silencioso e perigoso quanto a hipoglicemia: a desinformação. O problema não é apenas o que as pessoas ignoram, mas o que elas acham que sabem e, pior, o que sentem no direito de aconselhar sem dominar o assunto.

É comum sermos bombardeados por "receitas milagrosas", julgamentos disfarçados de preocupação e perguntas que carregam um preconceito velado. "Ele não pode comer isso, né?", "Foi de tanto doce que ele comeu?", ou o clássico "Conheço um chá que cura". Cada uma dessas frases, embora muitas vezes ditas sem maldade aparente, cai como um soco no estômago de quem luta 24 horas por dia para manter um equilíbrio vital. O "mundo doce" do meu filho já tem um sabor amargo o suficiente; não precisamos do fel da ignorância alheia.

O que muitos não entendem é que o Diabetes Tipo 1 não é uma escolha de estilo de vida; é uma condição autoimune, súbita e implacável. Quando alguém que não domina o assunto decide dar um palpite, ela não está apenas oferecendo uma opinião irrelevante; ela está desvalorizando o esforço hercúleo de uma "mãe pâncreas" e, o que é mais grave, afetando o psicológico de quem convive com a condição. Para uma criança ou um adolescente, ouvir que sua condição é "culpa" de algo ou que ele é "doente" pode destruir a construção de sua autonomia e autoestima.

Minha postura hoje, em 2026, é clara: a saúde do meu filho não é espaço para palpites amadores. Se você não vive a rotina de contar carboidratos na madrugada, se não entende a diferença entre uma insulina lenta e uma ultrarrápida, ou se não compreende que o DM1 não tem cura por dieta, o seu papel é apenas um: o de ouvinte.

Falar sobre o que não se domina é uma irresponsabilidade emocional. Palavras erradas geram estigma, reforçam mitos e isolam as famílias. Por isso, meu apelo é pela empatia através do respeito. Se você quer ajudar, informe-se. Se quer apoiar, acolha. Mas se não tem conhecimento técnico ou vivência real, o silêncio é a melhor forma de carinho. Na dúvida, não diagnostique, não sugira curas e não julgue. Se não sabe o que falar, cale-se. O silêncio de quem não sabe é muito mais saudável do que a voz de quem desinforma.

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