Eu juro que vi um anjo na China
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 26 de Maio de 2026 ás 16h 08min
Eu Juro que Vi um Anjo na China
Eu juro que vi um anjo na China…
Entre lanternas vermelhas que flutuavam no ar
e rios espessos de névoa prateada,
ele surgiu de repente, silencioso e imenso,
tal como um presságio divino
atravessando o coração da madrugada.
Os olhos dele,
profundos e brilhantes,
eram duas chamas puras de luz viva,
acesas bem acima da imensa tristeza do mundo,
duas luas pequenas e perfeitas
fitando a alma humana com uma calma terrível,
como quem conhece, com exatidão,
todos os segredos e as cicatrizes da nossa solidão.
A sua espada,
lâmina forjada com fios brilhantes de estrelas antigas,
tinha o poder de cortar o mundo ao meio,
devagar, sem pressa,
como se separasse, com precisão absoluta,
os sonhos imortais da carne que perece,
a esperança eterna da ruína certa,
o céu profundo e misterioso
da pequenez dos homens terrenos.
Eu juro que, ao vê-lo, senti medo.
As montanhas se ergueram e estremeceram,
comovidas sob os pés daquele anjo estranho e poderoso,
e o vento, ao passar, carregava cânticos solenes
num idioma tão antigo e sagrado,
que nenhuma boca feita de barro
jamais seria capaz de pronunciar ou compreender.
E então, naquele silêncio de espanto, eu compreendi:
existem criaturas celestes de uma outra ordem,
que não descem até nós para oferecer salvação,
mas para nos fazer lembrar, com rigor e clareza,
que o infinito é real e existe,
e que somos apenas centelhas frágeis e breves
diante da assombrosa vastidão do cosmos.
E mesmo agora,
quando a noite desaba suavemente sobre mim
e as estrelas tremem, inquietas, na minha janela,
eu ainda sinto o peso daqueles olhos de luz
perfurando e atravessando a minha alma,
afiados e eternos,
como lâminas feitas de pura eternidade.