Eu era uma lagarta
Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 12 de Fevereiro de 2026 ás 15h 15min
Eu era verde,
um enrolar lento
no abraço denso
do girassol.
Inútil, talvez,
aos olhos apressados
do mundo dos homens,
mas feliz na minha teia dourada,
entre pétalas gigantes,
bebendo o orvalho matinal.
A folha era meu céu,
o sol, meu único senhor.
Eu comia sem culpa,
crescia sem pressa,
uma promessa silenciosa
na grama alta.
A felicidade era assim,
verde e mastigada,
um murmúrio no caule grosso.
Até que veio o som,
o estrondo surdo,
o peso inesperado
que não pertencia à natureza.
Um sapato enorme,
sem notar a vida miúda.
A dor foi breve,
o mundo rachou
na escuridão compacta.
Fim da lagarta,
fim do verde despreocupado.
E então, a pausa.
O casulo, meu refúgio escuro,
a alquimia da espera forçada.
Lá dentro, a metamorfose,
a morte do que eu era,
o rascunho da beleza que viria.
Quando a casca cedeu,
não era mais a lagarta rastejante.
As asas, frágeis e novas,
pintadas com o sol que eu amava,
mas agora, leves, prontas para o voo.
Eu sou a borboleta,
o milagre desdobrado.
O campo de girassóis ainda existe,
mas agora eu o vejo de cima,
um tapete de ouro sob mim.
Os jardins do Criador são vastos,
cheios de cores que eu nem sonhava
enquanto comia folhas.
Eu voo, sem peso,
sem a sombra do pisar.
Minha jornada é pura alegria,
uma dança no ar quente,
lembrando a antiga prisão verde,
e celebrando a liberdade alada,
o propósito redescoberto
no azul infinito.
O mundo dos homens lá embaixo,
e eu, acima,
apenas cor e brisa.
Inútil? Nunca mais.
Sou a leveza que aprendeu a voar.