Estrelas são poesias
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 14 de Março de 2026 ás 22h 14min
A montanha respira fundo,
pedra fria sob o céu negro.
Silêncio denso,
como veludo antigo,
espalhado sobre picos nus.
E então, o rasgo.
Não trovão, não relâmpago comum,
mas uma chuva celeste, fina e intensa.
Uma tempestade de estrelas despenca,
sem aviso, sem som audível,
apenas visão pura.
Cada ponto de luz,
um projétil de fogo frio,
cai direto na crista adormecida.
Não queimam a rocha,
não deixam crateras de fúria.
Elas pousam suaves,
pequenos fragmentos de um universo que se desfez em pura ideia.
Cada estrela é um pensamento solto,
uma frase que pairou no vazio e encontrou seu fim súbito na terra escura.
Um pensamento de manhã cedo,
o cheiro de orvalho na grama,
nunca capturado em tinta.
Outro, um vislumbre de cor no crepúsculo,
a sombra exata de uma folha caindo,
linguagem que falhou em se formar.
São poemas completos,
em sua breve, explosiva existência,
mas nenhum papel os recebeu.
Nenhuma voz os leu em voz alta.
São versos de silêncio,
estrofes de luz que se apagam ao tocar a superfície inerte da montanha.
O pico absorve a queda,
como uma mente aberta à revelação inesperada.
As estrelas-ideias se incrustam na sombra,
milhares delas, silenciosamente.
Um romance nunca iniciado,
a solução para um enigma antigo,
a cor exata que faltava na paleta do pintor.
Tudo isso em precipitação cósmica.
A montanha se torna um arquivo secreto,
um cemitério de potencial não escrito.
Se pudéssemos escutar a pedra agora,
ouviríamos o eco de todas as palavras que quase foram ditas.
A tempestade cessa tão rápido quanto começou.
O céu volta ao seu preto profundo,
estrelas restantes, distantes e indiferentes.
A montanha permanece.
Mais pesada agora, não em massa,
mas no peso dessas ausências luminosas.
Um silêncio que agora carrega a promessa de todos os poemas que o mundo perdeu ao não saber ouvir a chuva de estrelas naquela noite solitária.
Ainda queimam ali, invisíveis,
as verdades que ninguém escreveu.