Éramos fogo, hoje fumaça, amanhã uma fina névoa
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 09 de Março de 2026 ás 20h 38min
Antes, um incêndio rubro
no peito aberto do tempo.
Éramos a labareda alta,
o calor que anunciava a vida,
o estalo seco da madeira antiga
cedendo ao impulso voraz.
Éramos o grito amarelo
e a dança selvagem das chamas,
consumindo o escuro com fúria boa,
deixando marcas profundas na terra.
O cheiro de queimado era promessa,
o rastro da força indomável.
Caminhávamos eretos,
como troncos acesos.
Agora, a brasa esfria,
o ímpeto se acalma,
e o que resta é a ascensão lenta,
o corpo que se curva em fina espiral.
Somos fumaça.
Leve, cinzenta,
subindo sem pressa para o azul.
Já não aquecemos, apenas obscurecemos um pouco
o sol do meio-dia.
A forma que um dia foi sólida
se dissolve no ar, sem resistência.
Movimento contínuo,
sem volta ao estado anterior de chama.
Perseguimos o vento,
somos a memória suspensa do que ardeu.
E o amanhã nos chama com um sussurro úmido,
promessa de leveza extrema.
Seremos névoas serenas,
o vapor que a terra exala ao primeiro toque da luz.
Mais tênues que a fumaça,
quase invisíveis.
Uma textura de ar frio,
uma ausência que ainda retém a forma do sonho.
Tão finas, tão desfeitas,
que a primeira brisa da manhã,
aquela que toca a face ainda adormecida,
não fará esforço algum para nos levar.
Simplesmente seremos dissolvidos.
Retornando ao ciclo sem alarde,
o último suspiro de calor
perdido na vasta inação do céu.
Apenas frescor.
O fim da urgência.