Éramos Felizes...
| Crônica | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | ADAILTON LIMAPublicado em 06 de Maio de 2026 ás 17h 13min
Éramos felizes...
Volta e meia me vejo retornando para meu passado, ás vezes de propósito, outras tantas sem querer. Morar em uma cidade grande em proporção, mas pequena em “caminhos”, sempre nos faz reencontrar a estrada de nossa historia. E quando isso acontece, o filme passa novamente, sem cortes, sem ensaio, sem tempo de mudar as personagens. A rua, as pessoas, as casas e os sorrisos, contrasta com a cor dos cabelos ou a falta deles, o falecimento, a mudança de alguém também nos causa à sensação que o passado não deveria se submeter ao presente, nem permitir que o futuro se intrometesse na existência. Mas o tempo é imparável, um segundo atrás já é passado e tudo ficou por conta do que não existe mais e o que “restou” nos mutila e nos leva a procurar um túnel do tempo.
O mundo foi abduzido por um universo sem estrelas, sem brilho, sem a benção dos nossos pais, acho que as coisas começaram a mudar quando temido mertiolate parou de arder, quando o “como vai?” foi substituído pelo “diga aí”’ e as brincadeiras, e as canções de nossa infância, deixaram de ser politicamente correta. Não terei saudade da austeridade do viver, do limite imposto, disfarçado de liberdade, nem de dividir meu espaço com um decreto. Mas algo não mudou com o tempo, o amor parental, a solidariedade, a paz de espirito e a sensação de responsabilidade, do dever cumprido, da fé no divino e da criação louvável dos meus pais e todo conhecimento e sabedoria transferida por eles e o respeito, valor indivisível no nosso caminhar.
O saudosismo é um encontro marcado com nosso sentimento, um encontro sem consentimento, que simplesmente acontece, arrefece nossos sentidos, onde os cheiros, os gostos e os sons, nos levam para as visões espelhadas do nosso ser, nos conduzindo a incursões registradas na retina, que os olhos lacrimejantes turvos, tateiam entre nuvens, procurando a saída.
O encontro de um amigo, o som de uma canção, um telefonema de alguém, que a voz nos faz retornar a um tempo bom, que a cronologia destruiu.
As roupas eram mais simples, as musicas tinham conteúdo, as escolas nos faziam bem, a ponto da ansiedade nos tomar, para que a noite passasse mais rápido, e o dia chegasse cheio de novidades na sala de aula. Cada afago, reclamação, castigo, carão, aparecem num piscar de olhos, mas desaparecem ante nossa realidade tão distante, de uma época que éramos felizes.
ADAILTON LIMA