Epístola de um amor que o mar esqueceu
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 02 de Agosto de 2026 ás 12h 29min
Epístola do Amor que o Mar Esqueceu
Rosy Neves
Meu eterno amor,
Escrevo-te de um século que já não mora nos calendários. Um tempo antigo, apagado pelas marés da eternidade, onde os sinos deixaram de tocar e os navios aprenderam a navegar apenas na memória dos ventos.
Talvez esta carta nunca encontre tuas mãos. Talvez o oceano a recolha como recolheu o teu nome, teu sorriso e a última promessa que fizeste sob um céu de tempestades. Ainda assim, escrevo. Há palavras que precisam existir, mesmo quando não há ninguém para ouvi-las.
Lembras-te da manhã em que o mar parecia um espelho? Disseste que voltarias antes que as gaivotas aprendessem outro caminho para o horizonte. Desde então, incontáveis luas nasceram sobre as águas, e eu permaneci na mesma praia, conversando com as conchas, perguntando às ondas se elas haviam visto teus olhos.
Mas o mar guarda silêncios mais profundos que a própria noite.
Dizem que houve uma tormenta. Dizem que um navio desapareceu entre neblinas sem nome. Dizem tantas coisas... Contudo, meu coração jamais acreditou na palavra "fim". Há amores que não morrem; apenas afundam lentamente nas profundezas do tempo, onde as estrelas se refletem como lanternas acesas para os navegantes perdidos.
Hoje caminho entre ruínas de um mundo que já não conhece nossa história. O vento pronuncia teu nome em uma língua esquecida, e as ondas respondem com um murmúrio antigo, como se o próprio oceano rezasse por nós.
Se algum dia encontrares esta epístola, seja em uma garrafa levada pelas correntes ou escondida entre as páginas de um livro envelhecido pelo sal, não chores por mim. Ama-me apenas como se ama um farol distante: sabendo que sua luz continua acesa, mesmo quando ninguém mais a enxerga.
Eu ainda pertenço ao mar.
E talvez tu também.
Com um amor que nem os séculos puderam afogar,
Aquela que jamais deixou de esperar.