ENTRE PALAVRAS

| | Antologia Nacional Família Literária: A travessia das palavras | Isolti Cossetin
Publicado em 24 de Agosto de 2026 ás 19h 35min

ENTRE PALAVRAS

Antes de aprender a escrever,
eu já conhecia algumas palavras.

Aprendi-as antes do alfabeto,
antes dos livros,
antes de saber que as palavras
podiam morar no papel.

Aprendi-as no colo,
no silêncio das manhãs,
nas mãos de meu pai,
no olhar de minha mãe.

Amor talvez tenha sido
a primeira palavra que conheci.

Depois vieram outras,
ditas baixinho,
vividas mais do que pronunciadas:

cuidado, respeito,
coragem, pertencimento.

Palavras que não estavam escritas,
mas que ficaram.

Então chegou minha primeira professora.

Ela colocou letras diante dos meus olhos
e um mundo inteiro se abriu.

E, em algum momento da travessia,
encontrei Jesus.

Ou talvez tenha sido Ele
quem me encontrou.

Sua palavra atravessou meus medos
e permaneceu quando muitas outras
já haviam partido.

Depois,
a vida começou a escrever em mim.

Sem pedir licença,
acrescentou palavras
que eu jamais teria escolhido:

dor, perda,
saudade, solidão.

Mas também escreveu:

resiliência, recomeço,
liberdade, poesia.

E foi então que compreendi
que algumas palavras
não chegam para nos explicar.

Chegam para nos transformar.

Recebi-as como sementes.

Algumas floresceram cedo.

Outras precisaram
de muitos anos de silêncio
antes de romper a terra.

E agora,
depois de tantas travessias,
descubro que também tenho
palavras para entregar.

Talvez seja esse
o verdadeiro sentido
de uma palavra:

não terminar em quem a recebe.

Continuar.

Atravessar.

Chegar a outro coração.

Por isso escrevo.

Porque um dia
alguém me entregou uma palavra
e ela me ajudou a continuar.

Hoje,
ponho as minhas no papel
e as devolvo ao mundo.

Não sei onde chegarão.

Talvez encontrem
uma menina que ainda não descobriu
a força de sua própria voz.

Talvez alcancem
alguém cansado de atravessar.

Talvez sejam apenas
um pequeno abrigo
num dia de chuva.

Não importa.

As palavras não me pertencem.

Sou apenas passagem.

Elas chegaram até mim
depois de atravessarem outras vidas.

Agora atravessam a minha.

E, enquanto eu escrever,
continuarão viajando.

Porque algumas palavras
não terminam no papel.

Elas apenas
começam outra travessia.

 

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