Entre os dedos do mundo

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 13 de Maio de 2026 ás 10h 46min

Entre os Dedos do Mundo

 

 

Entre os dedos do mundo

corre um rio secreto,

silencioso como um suspiro antigo

escapando dos lábios da eternidade.

 

Nele dormem segredos submersos,

conchas de luas esquecidas,

mapas celestes rasgados pelo tempo

e cantos que nenhum homem

deveria ouvir.

 

Às margens desse rio oculto,

caminham os sentinelas.

Arcanjos de olhos profundos

quanto a noite sem aurora,

vestidos de sombras e névoas,

com asas feitas de silêncio.

 

Eles guardam a passagem

entre o sonho e o abismo,

entre a estrela que nasce

e a estrela que morre

sozinha no frio do infinito.

 

Cuidado...

Cuidado...

Não olhe para as estrelas.

 

Há estrelas que observam de volta

com olhos antigos demais.

Há estrelas famintas

que chamam baixinho pelo nome

dos poetas insones

e dos viajantes perdidos da alma.

 

Não escute o canto delas.

Ele parece doce

como água tocando pedras,

mas dentro dele existem mares mortos

e jardins sem amanhecer.

 

O arcanjo permanece imóvel,

fitando o céu ferido,

como quem conhece

o segredo enterrado no coração do cosmos.

 

E o rio continua correndo

entre os dedos do mundo,

levando consigo

orações esquecidas,

lágrimas de nebulosas

e o eco de uma advertência eterna:

— Não olhe para as estrelas...

pois algumas delas

são portas.

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