Entre o Sono e a Sombra
| Poesia intimista | Rose CorreiaPublicado em 24 de Outubro de 2026 ás 12h 47min
Sinopse: Entre sombras e silêncios, há fronteiras que se confundem e mistérios que persistem além do despertar.
Entre o Sono e a Sombra
Desde cedo, a noite me conhece,
sabe o nome do medo que não digo,
guarda os vultos que a memória esquece
e os segredos que dormem comigo.
Havia uma presença estranha e calada,
que surgia ao meu lado, sem rosto ou forma,
e eu procurava escapar, assustada,
sem saber se o real se desfaz ou se transforma.
Vieram rios, a lama, o sufoco,
cordas invisíveis, terras a cair,
e uma garganta apertada aos poucos,
sem que minhas mãos pudessem reagir.
Às vezes, a sombra tinha presença,
outras, era apenas sensação;
mas como explicar à consciência
o que o corpo grava sem explicação?
Uma figura sem rosto
atravessou o silêncio do quarto.
Deixou nos meus lábios o gosto
de um beijo indesejado.
Era escura, inteira de breu,
e trazia um calor sem chama.
Olhei-a como quem não se rendeu;
ela riu, indiferente à minha cama.
Quis afastá-la. Não pude.
Quis romper aquele instante.
Há prisões que não têm grades,
há presenças que permanecem
e deixam perguntas pela eternidade.
Despertei.
O quarto era o mesmo.
A noite, também.
Só o calor permanecia,
como a lembrança de algo além.
Hoje, já não temo como antes.
Conheço os corredores do escuro,
mas ainda não sei quem atravessa
a tênue fronteira entre o sonho e a realidade.
Talvez eu nunca descubra.
Talvez nem precise saber.
Há mistérios que não pedem respostas;
apenas se aproximam em silêncio
e esperam a noite acontecer.