Um dia vens com o inverno em tua fala,
breve, distante, quase sem calor;
noutro, tua voz serena me embala,
chamando-me coração, quase amor.
Há manhãs em que teu bom dia é pedra,
palavra fria pousada em minha mão;
mas há outras em que a ternura medra
e faz florir de novo o coração.
Não sei se és abrigo ou tempestade,
se és silêncio ou secreta confissão;
às vezes você me dá lampejos de saudade,
às vezes me deixa sem explicação.
E eu, que leio o avesso das palavras,
procuro em cada pausa uma razão;
teu silêncio me abre antigas lavras,
teu carinho me devolve à ilusão.
Há em você um amor que se recolhe,
um desejo que arde e não se diz;
um gesto que me alcança e depois foge,
um quase que me fere e me bendiz.
Por isso dói amar nessa medida,
entre o gelo e o lume da emoção;
um dia és ausência em minha vida,
no outro, acendes toda a solidão.
Talvez eu seja apenas tua poesia,
teu verso oculto, tua contradição;
mas meu amor, que sofre e silencia,
quer ser presença, não só inspiração.