Encontro nas sete sepulturas

Crônicas | 2025 - OUTUBRO - Sussurros da noite: contos e poemas de mistérios | Manoel R. Leite
Publicado em 14 de Julho de 2025 ás 10h 55min

As sete sepulturas sempre estiveram ali. Enfileiradas lado a lado, cobertas de relva baixa, ladeadas por pedras envelhecidas que o tempo desgastou com paciência. Ninguém sabe ao certo quem foi enterrado primeiro, nem o motivo daquela simetria tão pouco comum no fim do corredor de Angelim Saia - tão agradável aos morcegos e outros seres. Estão afastadas do restante do cemitério, em uma elevação discreta que a chuva moldou e o vento manteve.

Não há nomes legíveis nas lápides. Apenas sulcos irregulares, quase apagados, como se a própria terra tivesse decidido manter em segredo a identidade de seus ocupantes. Às vezes, os visitantes mais atentos param diante delas e ficam em silêncio por alguns instantes, como se algo os chamasse sem dizer palavra alguma.

Foi numa noite sem lua que os sete chegaram.

O primeiro a surgir vestia um paletó de linho marrom, com as mangas dobradas até os cotovelos. Caminhava como quem mede os passos, olhos varrendo o chão, atento a sinais que só ele parecia enxergar. Os cabelos eram finos e ralos, presos por trás num gesto que misturava vaidade e esquecimento. Trazia nas mãos um caderno antigo, amarelado pelas pontas, e um lápis preso atrás da orelha.

O segundo veio logo depois, com passos firmes e pesados. O vestido longo roçava o chão com um som abafado de algodão. Os cabelos estavam presos num coque apertado e a pele, bronzeada de sol e poeira que reluzia sob a luz fraca. Não sorria. Os olhos pareciam conhecer todos os caminhos da noite.

O terceiro chegou carregando uma pequena caixa de madeira, embrulhada em pano vermelho. Era o menor entre eles — talvez um adolescente, talvez alguém que o tempo não quis envelhecer. Tinha nos olhos um brilho inquieto, como quem procura algo que perdeu há muito tempo, mas ainda não aprendeu a desistir.

O quarto caminhava descalço. Os pés sujos de terra não deixavam pegadas, e os dedos longos das mãos estavam entrelaçados como quem faz uma prece silenciosa. A túnica escura balançava com o vento, e havia algo em seu silêncio que perturbava até os insetos que zumbiam no ar.

O quinto vindo do lado oposto, como se sempre tivesse estado ali, apenas esperando que os outros se reunissem. Tinha uma bengala simples, embora o corpo não mostrasse sinais de fraqueza. Usava um chapéu de aba larga, escondendo metade do rosto. Falava pouco, mas quando o fazia, o som ecoava como um eco engasgado.

O sexto era diferente. Usava botas polidas e um casaco longo, mesmo com o calor da noite. Caminhava com rigidez, os braços colados ao corpo, e os olhos escuros percorriam os arredores como quem teme ser seguido. Um lenço branco pendia do bolso do casaco. Tocava-o com frequência, como se houvesse algo ali que o prendesse ao mundo dos vivos.

O sétimo chegou por último, sem pressa. Um vestido azul claro, quase da cor do céu que ninguém via naquela noite. Os cabelos soltos dançavam com o vento, e havia algo de infância em seus movimentos. Carregava um livrinho nas mãos, ilustrado com desenhos de estrelas, e cantarolava baixinho uma melodia sem nome.

Todos pararam diante das sete sepulturas.

Nenhuma palavra foi dita.

Nenhum nome foi mencionado.

Apenas ficaram ali, alinhados frente às lápides, como se soubessem exatamente por que haviam voltado.

Do lugar onde observo, consigo ver tudo. Há muitos anos que olho esse campo, mesmo que quase ninguém me perceba. Escuto os passos, os sussurros, os pensamentos que não chegam a ser ditos. O tempo, para mim, não passa — apenas se dobra, como as folhas secas que o vento varre entre os túmulos.

A cada outubro, numa única noite, os sete se encontram. Sempre os mesmos, sempre no mesmo lugar. Não sei se vêm do passado, do sonho, da lembrança de alguém. Mas sei que chegam.

E toda vez que vêm, uma nova pequena mudança acontece.

Desta vez, a mulher de vestido longo ajoelhou-se diante da terceira sepultura. Retirou um pequeno lenço bordado do bolso e o depositou sobre a pedra. O rapaz de túnica encostou a testa na sexta lápide e murmurou algo em outra língua. O mais jovem, o que trazia a caixa, abriu-a com cuidado e retirou uma fotografia desbotada. Colocou-a sobre a sétima sepultura com delicadeza, como se devolvesse algo que nunca fora seu.

A música cantarolada pelo vento ou pela menina de vestido azul flutuava leve, tão baixa que era preciso calar o mundo para escutá-la. E o homem do chapéu, com sua bengala, apenas observava, como quem vigia a passagem do tempo por dentro da alma.

Por fim, o homem do paletó marrom riscou algo no caderno. Uma anotação breve. E guardou o lápis de volta atrás da orelha.

Um a um, começaram a se afastar.

Não trocaram olhares. Não houve abraço, nem aceno, nem despedida. Apenas se dissolveram na noite, na mesma ordem em que vieram, como se o cemitério fosse só um intervalo breve entre o que foram e o que ainda são.

Volto o olhar para as sepulturas.

Sobre cada uma, algo ficou. Um lenço, uma flor seca, um papel dobrado, um pedaço de tecido, um botão dourado, uma fita azul, uma fotografia. Pequenos gestos que não precisam de legenda.

A noite volta ao seu silêncio comum.

 

O vento sopra por entre os Angelim Saia, e o cemitério respira fundo como quem guarda um segredo antigo.

As sete sepulturas repousam sob a mesma terra.

E permaneço aqui, entre os vivos e os esquecidos, observando os passos daqueles que voltam para lembrar aquilo que o tempo tentou apagar.

Talvez eu tenha sido um deles.

Talvez eu ainda seja.

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