DOMINGO SEM CARDÁPIO
| Narratica | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Fátima CordelistaPublicado em 22 de Maio de 2026 ás 16h 47min
Domingo Sem Cardápio
Domingo de Dia das Mães não tem cardápio.
Tem o que tiver na geladeira e o que sobrar de coragem.
Acordo antes do sol pra dar conta. Arroz, feijão, frango. O de todo dia, só que hoje boto a travessa bonita. A que ganhei no aniversário e nunca usei com medo de quebrar.
Hoje pode.
O filho mais velho pergunta se vai ter lasanha. Não vai. Lasanha é coisa de propaganda. Mãe é coisa de panela de pressão chiando desde as sete.
O do meio chega de cara amassada, cabelo em pé. Me abraça por trás enquanto mexo o molho. Não fala nada. Abraço de filho é bilhete que não precisa de letra.
Os netos chegam com presentes, bilhetes e desenhos de várias formas e cores, entre flores e borboletas tortas está um “vó eu te amo”.
A pequena fez um desenho na escola. Sou eu, de coroa e capa. Embaixo escreveu rainha com i. Rainha não lava louça, eu penso. Mas lavo sorrindo porque o reino é esse aqui: As bocas pra alimentar e uma mesa que não pode ficar vazia.
Meu marido pergunta se quero ajuda. Digo que não. Tem coisa que mãe faz sozinha porque se dividir perde a graça. A graça é suar, queimar o dedo, provar sal e lembrar da minha mãe fazendo igual. Ela também não tinha lasanha. Na hora do almoço, coloco tudo na mesa. O arroz passou um pouco do ponto. O frango ficou sem cor. Ninguém repara. Estão ocupados demais brigando pelo último pedaço e contando caso da semana. Aí o mais velho levanta, bate o copo na mesa pra fazer silêncio. Discurso de homem, o mais velho de todos.
"Feliz Dia das Mães, mãe. Obrigado pelo almoço. Ano que vem a gente leva a senhora pra comer fora."Todo mundo ri. Eu choro. Disfarço dizendo que é a cebola do molho. Mas é mentira. É que ninguém nunca me prometeu o ano que vem. E comer fora não tem gosto de casa cheia. Depois eles lavam a louça. Mal lavada, cheia de espuma. Deixo assim. Hoje rainha não reclama de súdito. De noite, quando a casa aquieta, abro o desenho da pequena. Rainha com i.
Botaram coroa em mim sem eu pedir. E eu aceitei o trono, mesmo sendo de cadeira de plástico na cozinha. Dia das Mães é isso. Não é presente, não é restaurante.
É almoço de domingo com gosto de tô aqui, filho. E vou tá ano que vem também, se Deus quiser.