Domingo de final no Verdão
| Crônica | 2025 - Antologia Jose Hilton Rosa e Convidados | Manoel R. LeitePublicado em 10 de Março de 2026 ás 09h 20min
Cidades irmãs acordavam de maneira especial naqueles domingos de decisão. O sol ainda nem tinha subido direito sobre o rio Cuiabá e já havia gente andando pelas ruas com camisa do time por cima do ombro, ou roupas que lembravam o alvinegro ou o tricolor da cidade industrial, rádio de pilha na mão e uma esperança meio teimosa no peito. Era final do campeonato mato-grossense. E quando a final colocava frente a frente Mixto e Operário, as cidades irmãs se rivalizavam.
O futebol era assunto de semana inteira. No mercado, o peixeiro falava da escalação enquanto limpava o pintado. Na barbearia alguém jurava que o Mixto tinha o melhor ataque do estado. Mais adiante, um operariano de boné verde garantia que naquele domingo o tricolor de Várzea Grande ia mostrar quem mandava na bola. Cada frase vinha carregada de certeza e de riso, porque no fundo ninguém sabia mesmo o que aconteceria quando a bola rolasse.
O Verdão, como o estádio era chamado com carinho, começava a se encher cedo. Arquibancada de concreto quente, vendedores passando com garrafa de gasosa e saco de amendoim, crianças tentando espiar o campo por entre os adultos. O gramado parecia maior naquele dia, como se soubesse que carregaria noventa minutos de história. Ao entrar dos times, o barulho crescia como trovoada de verão.
De um lado o Mixto, com sua camisa alvinegra carregando o peso da tradição. Do outro o Operário, orgulhoso, vindo de Várzea Grande com torcida que atravessava a ponte como quem atravessa uma fronteira simbólica. Não havia televisão transmitindo para todo canto como hoje. O espetáculo estava ali, inteiro, diante dos olhos e dos corações.
A bola começava a rolar e cada lance virava conversa imediata.
— Passa a bola!
— Chuta daí!
— Esse juiz não está enxergando nada!
Rádios de pilha colados ao ouvido repetiam a narração acelerada, mesmo para quem já estava vendo tudo acontecer. Era mania antiga: ouvir o jogo enquanto ele acontecia. Sol escorria pela arquibancada, o pó do campo subia quando algum carrinho mais firme levantava terra, e a torcida respondia como se cada dividida fosse também uma disputa de orgulho entre cidades irmãs.
De vez em quando alguém se levantava antes do resto da arquibancada e gritava:
— Agora vai!
E todo mundo ficava de pé ao mesmo tempo, como se o estádio inteiro tivesse recebido o mesmo impulso invisível.
Naquele tempo o futebol ainda tinha cheiro de terra, de camisa suada, de tarde comprida. O gol, quando saía, vinha acompanhado de um segundo de silêncio, aquele instante em que a bola encontra a rede e o mundo parece parar, antes da explosão de alegria que fazia o concreto vibrar.
Não importava tanto quem ganhava naquele domingo. Porque quando o juiz apitava o fim da partida e o sol já começava a cair por trás das arquibancadas, a cidade voltava para casa carregando histórias para contar. No bar da esquina, na varanda, na calçada onde o vento da noite trazia algum alívio ao calor.
Alguém lembraria de um drible bonito, outro juraria que o goleiro fez milagre, e um terceiro diria que no ano seguinte a final seria ainda melhor.
Assim o futebol seguia vivendo na memória. Entre Mixto e Operário, entre Cuiabá e Várzea Grande, entre um domingo e outro. Porque certas partidas não terminam quando o árbitro apita. Elas continuam sendo jogadas nas lembranças de quem esteve ali, no velho Verdão, quando o futebol ainda cabia inteiro dentro de uma tarde.