Do lado de fora ainda é dentro

| Narratica | 2026/06 Antologia Versos de raiz e chão | Junia Taina Nogueira Fries
Publicado em 21 de Junho de 2026 ás 23h 07min

Se eu fosse um título, ele seria lido? (Reflexos mundanos)

Tinha uma bola de sabão, uma bola grande, redonda, pequena e um montão. Uma linda bola de sabão tinha na minha mão. Ela era linda, toda colorida, mas, às vezes, sem cor, com uma semelhança ao vidro. Era solta e despreocupada; chegava a levitar e quase escapava.

O tempo foi generoso, deixou mais um pouco, um pouco mais de tempo para eu observá-la mais de perto. Com um pouco mais de tempo, percebi que era de uma delicadeza majestosa e de uma força presente em toda a sua fragilidade. Era como uma mariposa, uma libélula, uma borboleta, qualquer inseto com asas transparentes e nuances de arco-íris ao luzir dos feixes de sol, tendendo para um rosa suave.

Era uma bolha, um pouco embaçada, perdendo sua transparência e tendendo ao translúcido naquele momento. Pelo menos, ainda não estava opaca; caso contrário, já não conseguiria ver o que havia dentro, nem sua forma reluzente e delicada.

Já quase não se dava para ver o outro lado da moeda. Havia um vazio nela, um vazio por dentro e por fora, mas algo fino e quase invisível a recobria e lhe dava forma. Mesmo vazia, ainda era linda. Havia um certo brilho ao vê-la; existia tanta beleza naquela película que quase não se percebia o entorno, nem o quanto o oxigênio de dentro era separado do de fora por aquela fina membrana, tão fina que, a qualquer movimento, poderia estourá-la.

Pelo lado bom, o que havia dentro teria contato com o que havia fora, de forma imperceptível aos olhos. Pelo lado ruim, não seria possível ver, a olho nu, essa mistura e esse contato extraordinário.

Ainda na mão, escorregando pelos dedos... quase não percebo, quase a perco entre os dedos, meus dedos finos e largos atrelados a essa bolha, presa ou segura.

Ela não era qualquer bolha. Era uma bolha cercada por muros, e não os de Berlim. Era uma cerca bonita, tão bonita que quase não se notava. Eram dois mundos separados em um mesmo espaço, como várias bolhas dentro umas das outras. Só se via a bolha maior acima da menor.

As bolhas pequenas não sabem que são pequenas, e as bolhas grandes não veem sua própria dimensão diante de tamanho espaço.

As bolhas que estavam ali paradas, aparentando estar imóveis, começam a competir pelo espaço: umas querendo estar dentro das outras, enquanto outras querem estar fora. Algumas querem estar dentro, mesmo sendo apenas esferas iguais. O tamanho e o desconhecido tornam-se algo a ser explorado, tamanha admiração que gera o desejo pela posse do outro lado da esfera.

Talvez a beleza esteja em querer o que não se pode ter, e o desejo, em querer alcançá-lo: o outro lado da esfera.

Nessa dança de bolhas, quando o cômodo se torna incômodo e o que há dentro quer habitar uma esfera maior, ao lado, mais próxima e visível aos olhos, algo dentro sabe que existe mais lá fora, um espaço maior, algo cujo contato complete o espaço vazio.

Esferas próximas e esferas paralelas; uma maior que a outra, uma acima da outra. Talvez já tenhamos habitado alguma delas, talvez a mesma esfera, o mesmo espaço, a mesma bolha, no mesmo tempo. Ou talvez já as tenhamos revisitado, e agora fique a sensação de algo que nos separa: o lado de dentro que sente e o lado de fora que contempla, observando.

Talvez já tenhamos estado no mesmo estado: sentimental ou de pensamento, físico ou químico; planetas dentro de um universo de possibilidades.

Mas algo em mim sabe: já tivemos algo, já vivemos algo, já tivemos outra vida. Já passei por aqui, e há algo do outro lado com o qual também já tive contato.

Já tivemos contato.

Será? Ou será que sempre fomos apenas bolhas separadas por uma membrana, com química e sensações de já ter vivido, mas apenas uma similaridade de espaço observável? o que em você encontra eco em mim. 

Com afeto e estima, Tn.   

- Junia Taina Nogueira Fries

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