DIAS DE MÃE - DAS MINUDÊNCIAS E OUTROS POUCOS VALORES
Saudades | Crônica | 2026/9 Antologia O invisível que a palavra revela | Bernadete Crecencio LaurindoPublicado em 10 de Setembro de 2026 ás 12h 24min
DIAS DE MÃE
DAS MINUDÊNCIAS E OUTROS POUCOS VALORES
Acordei cedo. Logo que acordei, me lembrei da minha mãe, dizendo: “Depois que o filho nasce, a mãe não sabe mais o que é dormir uma noite inteira. Mãe dorme feito urutau, a mãe-da-lua, o emenda-toco.” E ela explicava que esse bicho, com todos esses nomes, é uma ave que dorme de olhos abertos.
Eu, naquela época, não entendia essa história de mães não dormirem direito, de dormirem de “olhos abertos”. Oras, que fechassem os olhos e pronto! Mas não, era frequente minha mãe contar que tinha passado quase a noite inteira em claro, parecendo a mãe-da-lua.
Um belo dia, chegou a minha vez. Fiquei mãe. E o urutau, na ponta dos tocos secos no meio da roça, bicho feio que me assustava, agora parece que se encarnou em mim. Eu, de olho arregalado, na escuridão da noite, pensando... Oras, porque não dormes, mulher de Deus?!
Não, como dormir, esquecer que os filhos estão por aí? Dá de largar tudo ao-deus-dará?
Foi aí que entendi, mães dormem feito urutau, e assim há de ser, por terem botado filho no mundo.
Quando o filho, já grande, longe do domínio da mãe (assim ele pensa), bate a porta atrás de si e vai para seu próprio mundo, a mãe resiste, para não pegar o telefone e perguntar: “Filho, estás bem? Levaste um casaquinho? Não pega friagem. Cuida pra não comer comida com muito sal, que te faz mal.” A preocupação dela chega a ser poética, ela faz rimas...
Não, vontade de ligar ela tem, mas não é louca.
E quando essa preocupação se multiplica por dois ou três filhos!... Ah, não tem mesmo, como dormir direito, dormir pesado.
Então, o que acontece? Ela não esqueceu que um dos seus meninos tinha asma, quando o tempo estava frio; o outro tinha dor de barriga e talvez fosse o sal... ué, podia ser; ela sempre cuidava com o sal da comida. A menina era muito apegada a ela e podia ser que estivesse precisando daquele chazinho de erva doce que só mãe sabe fazer.
Agora eles estão aí, pelo mundo, longe dos olhos dela, dos cuidados dela.
Ligar para eles, no meio da noite, ela não liga, ela não fala, ela deixa na Mão de Deus. Contar para quem quer que seja, ela não conta; vão pensar o quê?
Falta de ter coisas importantes pra fazer, é isso. Ela acha tão chique quem tem coisas importantes para fazer, para pensar, como a moça bonita, bem vestida, que ela vê na TV! Também tem o homem de terno e gravata, que passa em frente a sua casa, num carro lindo; ele deve pensar coisas importantes. Ela, não, ela só tem nadices na vida, na cabeça, na casa simples.
Aí, vem a noite, a madrugada e a mãe-da-lua não fecha os olhos; quem sabe o filho liga...
O filho ficou grande, mas quem tira o filho do colo de mãe?...
É, como dizia minha mãe, a última noite que uma mãe dorme sossegada é a noite antes de o filho nascer.
Mãe, me desculpa, mãe!...
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O texto aborda a maternidade sob a ótica da preocupação constante de um amor incondicional. Sua mensagem principal é de que ser mãe é renunciar ao sono e à tranquilidade, pois a responsabilidade e o afeto por suas crias são necessárias e perduram ao longo da vida, mesmo quando eles crescem e adquirem independência.