De que é feito um poeta?

Crônicas | 2025 - Antologia Bernadete Crecencio Laurindo e Convidados - A Poetisa e sua Poesia | Manoel R. Leite
Publicado em 09 de Janeiro de 2026 ás 23h 02min

Eliza começou a escrever muito cedo, não tinha noção do porque escrever. Sentia em seu íntimo apenas a necessidade da escrita. Como um rio que corre para o mar, assim era seus anseios, suas palavras, deixando a nascente montanhosa das sensações, buscando o papel no mar imenso das palavras em veros. Embarcações que bravamente enfrenta a jornada, viagem que existe apenas pelo fato de deixar o porto. Ondas que crescem ao encontrarem outras ondas no mesmo rumo. Versos que inundam vidas, percorrem o interior humano como se o grito fosse um ato de paz. Isso é ser poeta!

Ela sabia que as perguntas, muitas vezes não fazem sentido, e, muito menos não carecem de respostas. Respostas essas exigidas por aqueles que possuem medo de navegar. Lutam contra a fluidez das palavras, correm contra o destino. Usam o medo como motivo para não prosseguir. Pensam demais por isso sentem o viver pouco.

Seria então o poeta feito do mesmo material que é feito os sonhos? Uma junção de lembranças, esperanças, saudade e nostalgias, carregadas com um querer de paixão avassaladora? Paixão por relacionamentos, por acreditar, por enxergar, ou tão somente viver. O curso existencial de tudo.

Quanto menos entendia, mais produzia, mais escrevia. A escrita é viva em tudo que respira, ou simplesmente se transforma, da rocha à areia, da areia ao vidro, do sopro ao tempo. Em tudo mais que existe.

Mas, quando ela pensava demais, os versos se calavam. Pesava nas respostas, nas comparações e nas opiniões. Nesses momentos os versos eram dúvidas e saudades emudecidas, longe do papel e perto das angústias torturantes rolando como pedra de Sísifo dia após dia, ano após ano. Nisso a caneta era substituída por receita não de vidas e conselhos. E, sim por remédios para controlar as dores, pressões, ansiedade e tristezas. Represando a vida, rachando as paredes da razão e ofuscando os sonhos em busca de aceitação e curtidas. A velha dança de ser mais um aparentemente diferente. Mas igual a todos e desistir de fluir, desistir de viver.

O rio corre para o mar e nunca se esgota. A inspiração segue o mesmo curso. Busca o papel e toca os seres em seu caminho até retornar a origem, e, carregar novos poemas, novos versos.

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