Cultura em Sampa
Eu adoro viajar, e você? Como é gostoso pegar o carro, o trem ou um avião e poder realizar grandes aventuras por aí. Muitas vezes nem é preciso ter muito dinheiro. Basta fazer algumas pesquisas, escolher um lugar maravilhoso e partir para o desconhecido.
Meus sobrinhos, moradores do interior de Minas Gerais, tiraram férias e vieram passar uns dias em minha casa. Não tínhamos condições de viajar para outros lugares naquele momento, então resolvi olhar o guia cultural de São Paulo e me deparei com lugares fantásticos, muitos deles, desconhecidos por mim, e olha que sou moradora daqui desde que nasci e descubro que não conheço muita coisa da cidade, apesar de viver nas proximidades.
As vezes buscamos conhecimento e divertimento longe de onde moramos e mal sabemos que bem perto de nós, podemos encontrar grandes tesouros.
Percorrendo a internet em busca de um lugar diferente para passear num sábado à tarde, encontro vários museus, shoppings, praças, parques. O que não faltam são lugares culturais para passear em São Paulo.
Fico atenta aos comentários e vejo dicas de algumas pessoas, mas o que realmente me interessou foi o Museu de Arte de São Paulo, o Masp.
O Masp foi construído em 1947, primeiramente instalado na Rua Sete de Abril, no centro da cidade e depois transferido para a Avenida Paulista, uma das avenidas mais famosas de SP. Ele foi fundado pelo empresário Assis Chateaubriand. É um museu privado, sem fins lucrativos. Lina Bo Bardi foi a responsável pelo projeto arquitetônico arrojado do local.
Pronto. Escolhido. O Masp será o local para o passeio em família no próximo sábado.
Entro no site do museu e procuro se há alguma exposição em cartaz. Além da mostra de longa duração de seu Acervo em transformação na pinacoteca, realizava-se a exposição da Tarsila do Amaral, paulista de Capivari, participante do Modernismo e que fazia parte do chamado “grupo dos cinco”, formado por ela, Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia.
Como não íamos amar essa exposição?
Ingressos adquiridos, partimos eu e minha família para o Masp.
Como não moramos na capital, precisávamos nos deslocar de trem até a Avenida Paulista e isso foi extraordinário, pois meus sobrinhos nunca haviam andado de trem.
Vocês devem estar se perguntando: nunca andaram de trem? Não, e para quem nunca andou, é uma grande aventura.
As crianças acharam muito interessante a distribuição dos bancos e a parada em cada estação. O trem estava vazio, o que ajudou na observação da paisagem ao longo do caminho. Com seus celulares em mãos tiravam fotos de tudo que achavam interessante.
Descemos na estação Tamanduateí para pegar o metrô e finalmente descer na Estação Trianon-Masp, a mais próximo do Museu.
Se meus sobrinhos amaram o trem, imagina andar de metrô! Acharam o máximo e ficaram admirados que o mesmo ticket usado no trem, servia para o outro transporte.
O deslumbramento com a Avenida Paulista foi nítido. Impossível não se apaixonar e ficarmos extasiados com suas construções e modernidade.
O prédio do Masp, cercado por vidros e concreto, trazia uma mistura de aspereza e leveza. Se pelo lado de fora entrávamos em êxtase, já imaginávamos como seria dentro, observando e contemplando as obras de Tarsila do Amaral.
Pegamos uma pequena fila e logo entramos no local da exposição. Eu já conhecia outros museus e já havia ido a outras exposições, mas minha família não, então cada detalhe para eles fazia muita diferença.
O fato de aprendermos que Tarsila tinha um papel muito importante para a Arte brasileira, nos fez refletir sobre nosso papel como cidadãos. O que fazemos por nosso país?
Ela deixou claro em suas telas o valor do trabalho, a paixão pela nossa cultura e nossas raízes.
Tornou-se uma referência para a criação da Antropofagia modernista brasileira.
Na sua tela mais famosa, O Abapuru, cujo nome de origem indígena significa "homem que come carne humana", a artista representou parte do seu imaginário infantil, das lembranças de histórias fantásticas, de monstros, que contavam suas cuidadoras em sua infância, e que estavam relacionadas com homem que come carne humana, o antropófago. Essa tela é a que as crianças mais gostaram, pois disseram que já a conheciam pelos livros didáticos da escola.
Através de suas cores vivas pintou um Brasil, com cara de Brasil, retratou o trabalho, o povo, os seus costumes. Abordou temas sociais, do cotidiano e paisagens brasileiras.
Se Tarsila vivesse nos dias atuais com certeza pintaria a Avenida Paulista, pintaria a bela São Paulo, pincelaria em sua tela a movimentada e colorida vida na cidade, o agito e as luzes, as construções modernas e o asfalto quente, a dura poesia concreta das esquinas, como já dizia Caetano Veloso.
A experiência de estar no Masp vendo obras de uma grande artista brasileira fez valer o nosso sábado, principalmente nos fez refletir sobre o cotidiano e nos transportou a um Brasil passado. História.
Quem sabe essa vivência possa ser o início de outras férias, outros encontros culturais. Outros momentos de amor em família e despertar para o conhecimento. Por mais dias assim...
Comentários
Mui delicioso seu relato em forma de crônicas! Sou grato a você pois seu texto proporcionou a mim uma viagem no tempo e relembrar meus tempos de menino nas ruas de São Paulo, quer tenha sido de trem, ônibus ou chocando bonde! Que tempo maravilhoso! Obrigado por avivar minha memória! Parabéns!
Obrigada, poeta Enoque. Que delícia seu comentário e que bom que te fiz recordar de coisas boas! Um abraço