Conto de natal pantaneiro
Crônicas | 2025 - DEZEMBRO - Luzes e esperanças: Histórias e poesias para aquecer o Natal | Manoel R. LeitePublicado em 13 de Julho de 2025 ás 18h 42min
Sempre assim no fim de ano: dezembro chegava estalando os galhos secos do chão, anunciando chuvas fartas e a promessa de que o calor com breve trégua ainda se fazia presente . O cheiro da terra molhada misturava com o perfume das frutas amadurecendo nos quintais, e os passarinhos pareciam mais falantes. Era o Pantanal se ajeitando pro Natal.
Lá em Cáceres, o rio subia uns três dedos a mais que o normal, já o movimento era sem igual. Os barcos a motor, todos cheios de gente e engradados de bebida, faziam fila no cais. Peixe fresco, farinha fina, comida, tempero e muitos tecidos e roupas desembarcavam. Peixe frito nos bares, carnes bem assadas e sorrisos fartos nos rostos.
Querida Poconé, tinha o cheiro forte de terra batida, boiada e um toque forte do dourado do ouro no seu dia a dia. Lampiões mostravam o caminho da alegria e do rasqueado. Crianças a correr descalças em ruas sem calçadas, sem desejos fúteis ou ilusões de uma vida fora do paraíso, pois tudo estava ali. A vida simples não é pouca, é tudo que importa, é tudo que se precisa.
Em Barão de Melgaço, terra de minha mãe, o rio Cuiabá enchia devagar, lambendo as margens como quem pedia licença pra invadir. As terra próximas ao Pequiri pareciam encolher, ilhar-se em meio as águas. A canoa meio de transporte se fizera cotidianamente nobre ligando lugares e pessoas, parar uns era quase extensão de seus corpos de suas famílias. Ao longe Motor Evinrude 15 HP, cortava apressadamente o rio, voadeiras que precipitavam a pressa da modernidade a correria frenética do progresso formando ondas de modernidade, e, propagando outros modos de viver.
Já em Mimoso onde meu pai nascera, o céu parecia mais limpo apesar de sempre chover no final do ano. Mas na véspera do aniversário do Senhor Jesus. Sempre tinha uma trégua, como se dissesse “siga o caminho, irei lhes proteger”. As misturas sempre presente: de comida, pessoas, histórias e vidas. Vovó costurava as roupas - máquina Singer que quando não estava em uso, suas rodas eram volantes precisos e companheiros dos maiores desafios das estradas em carros velozes ou mesmo os recentes caminhões boiadeiros que com o tempo iram minguar as comitivas das estradas e das estâncias.
Papai Noel pouco se fazia presente nesses lugares. Não por ser longe, afinal só ele longe onde não mora o coração. Simplesmente, pois não era o seu aniversário, e, talvez por isso ele ficava muito mais ao norte, em grandes centros que esqueceram o aniversariante. Nas lindas paisagem inundadas do meu amado pantanal, Jesus Cristo era o aniversariante. E, todos os presente entendiam que o presente é para ele, para ele sempre ser presente, e isso é o presente verdadeiro que todos precisam. Novenas, rezas, orações feitas em frente a nichos, altares, galpões, debaixo de árvores ou mesmo em embarcações. Cores de vida, agradecidos a Nossa Senhora a seu amado filho, alegres por recordar a sua vinda, fiéis ao seu retorno e unidos nos sacramentos, devoção e mandamentos