Contagem Regressiva
| | 2024 - Antologia Liliane Inácia da Silva e Convidados | Gilmair Ribeiro da SilvaPublicado em 30 de Abril de 2026 ás 19h 26min
Daqui a minutos, o céu se tingirá de cores,
e a cidade barulhenta se erguerá...
Das taças levantadas brotarão sonhos
que não se realizarão,
e a esperança — “a última que morre”,
há de morrer solenemente,
sem pompa, sem vela,
ao fulgor do amanhecer,
sem que ninguém, ninguém mesmo...
se constranja por deixar o velho para trás.
O irmão mais velho,
que fazia aniversário numa data religiosa...
e, abaixo dele, o outro
que discutia política e sociedade ao amanhecer...
Ah! Aquela, “toda musical”,
que dançava como quem respira...
Pouco resta deles...
Seus registros mais fiéis estão desbotados
em fotografias antigas
que ninguém vê.
E a mãe?
Não sai mais à calçada, comovida, para ver os fogos.
Novos atores presentes iludem a finitude,
mas tem prazo de validade:
...não comovem...
A aurora branca e calma se aproxima,
esvoaçante como antigamente
aos cabelos longos e sonhadores da mulher amada...
O sonho ruiu...
O tempo passou...
Na contagem regressiva,
a esperança abraça a finitude,
como quem vê ao longe
um navio que se perde
na noite do mar,
promovendo o verdadeiro reencontro
de si mesma.
Não sei...
Talvez com os que já se foram,
ou não!