Conjugações do meu querer
Poemas | | Meriellen BaldezPublicado em 02 de Setembro de 2026 ás 20h 35min
Quando eu era menina
Eu queria saber voar
Queria ser uma das panteras
Queria saber lutar
Queria ser igual à Barbie
Queria ter olhos azuis e cabelo loiro
Queria ser incrível
Queria ganhar uma medalha de ouro
Queria ser princesa
Queria ser uma heroína
Queria casar com o príncipe encantado
Queria ser uma bruxa, igual à Sabrina
Queria ganhar o Show do Milhão
Queria ser modelo
Queria ser uma estrela
Queria ir para a televisão
Meu querer era no presente do indicativo
E até que era legal sonhar
Mas aí eu fui crescendo
E a vida mudou minha forma de conjugar
E foi aí que descobri novos quereres
Que não gostaria de experimentar
Quis deixar de ter meu cabelo
Deixar de ter meu rosto
Deixar de ter meu corpo
Deixar de ter minha cor
Quis ser desejada sendo quem eu era
Mas não deu muito certo
Quis me aproximar do amor
Mas pelo visto
Ele não me queria por perto
Após tantos quereres frustrados
Cheguei ao querer mais doloroso de se estar
Querer deixar de viver
Querer não mais amar
Após querer tanto não querer viver
Entendi a conjugação do verbo não era eu quem mudava
Era a vida
Era a sociedade
Era o racismo
Era a realidade
E aí entendi
Que há diferentes conjugações
E diferentes tipos de quereres
Há aqueles inocentes
Como querer voar e ter superpoderes
Mas há quereres perigosos
Que soam como deveres
E deveres não cumpridos viram dívidas
Dívidas pesam na consciência
Ficam todos os dias lembrando
E elas não têm paciência
Eu infelizmente quis quereres perigosos
Que me faziam todos os dias pensar:
"Não consigo isso, não consegui aquilo
Só consegui fracassar"
Hoje quero um querer mais seguro
Porque o futuro do pretérito dói bastante
O problema é que não dá para evitar
Deixar de querer, quem é que garante?
É viver na linha tênue entre realizar e frustrar
E a vida é assim
Hoje eu quis escrever isso
Ainda quero muita coisa
E depois talvez ainda vá querer mais
Agora que estou crescida
Queria mesmo era voltar a ser menina
Para deixar de querer
Aquilo que tanto quis um dia.