“Colapso de uma mãe Atípica”
| Crônica | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Marlete DacrocePublicado em 20 de Maio de 2026 ás 15h 47min
“Colapso de uma mãe Atípica”
Celeste sou eu.
Sou a prova viva do que a maternidade atípica pode fazer com uma mulher quando ela é deixada sozinha no meio da tempestade. Dizem que o autismo afeta a criança, mas isso é só metade da verdade. O autismo atravessa a casa inteira. Afeta a rotina, o casamento, o corpo, o sono, os sonhos e, principalmente, a mãe.
Sou autista e mãe de filhos autistas. Vivi anos em estado de alerta, como quem mora dentro de um incêndio que nunca apaga. Eram vinte e quatro horas de plantão, tentando entender crises, silêncios, choros, hipersensibilidades e o medo constante do amanhã. Enquanto o mundo seguia em frente, eu tentava organizar a vida dos meus filhos para caber num lugar que nunca foi preparado para eles.
A criança precisava ir à escola, aprender a conviver, ser aceita. Mas junto do autismo vinham outras comorbidades, outras dores invisíveis. E mesmo quando existe dinheiro para tratamentos, a vida já é extremamente sacrificada. Agora imagine quando não há recursos. Muitas mães abandonam a profissão, os amigos desaparecem, os casamentos estremecem. Alguns homens não suportam a pressão e vão embora. Muitas separações acontecem tentando salvar os filhos, enquanto a mãe fica para juntar os pedaços da casa e de si mesma.
Eu abri mão de tudo. Principalmente de mim.
Perdi noites de sono, saúde mental, vaidade, descanso. Não existe empresa preparada para entender que uma mãe de TEA e TDAH também precisa de ajuda. Gritei por socorro! Ninguém quis ouvir? O mundo capitalista não quer saber do ser humano, apenas da produtividade. O trabalho não pode parar porque um filho entrou em crise. Não importa se a mãe passou a madrugada acordada. Não importa se ela está à beira do colapso.
Naquela época quase não se falava em terapia, em suporte, em acolhimento. Eu mesma não entendia muita coisa. Só sobrevivia. Virei um zumbi funcionando no automático. Fui pai, mãe, terapeuta, enfermeira, professora, psicóloga, advogada de plano de saúde e cuidadora integral, tudo sem diploma, sem salário e sem direito de adoecer. Porque se eu caísse, meus filhos não tinham para onde ir. Ninguém queria ficar com eles. Ninguém queria cuidar.
O sistema que deveria proteger virou humilhação. Se não trabalha, passa fome. Se trabalhar, dizem que você não precisa de ajuda. Então virei empreendedora por necessidade, não por escolha. Costurei, fiz artesanato, chinelos, toalhas, qualquer coisa que pudesse ajudar nas contas do mês. Durante o dia eu dava aulas. De madrugada, produzia encomendas enquanto observava o sono agitado dos meus filhos.
Empreendi a noite entre uma crise e outra.
Hoje estou aqui falando de mim porque cansei de ser chamada de guerreira. Essa palavra bonita muitas vezes serve apenas para esconder o abandono. Chamavam-me de forte enquanto me negavam o básico. E eu seguia, sem armadura, atravessando meus próprios vales da morte. Adoeci várias vezes, por milagre resisti, continuei, porque meus filhos precisavam do básico. Terapia, tratamento especializado, diagnóstico precoce… tudo isso parecia distante demais da nossa realidade.
O discurso sobre inclusão é bonito. Na prática privilégio de poucos, comércio lucrativo. Nem todos conseguem alcançar.
Só quem vive e convive com o TDAH e o Autismo sabe o peso de carregar o mundo sozinha. E, mesmo assim, ainda existe quem aponte o dedo para julgar a gente. A família cobra, a sociedade cobra, mas quase ninguém oferece colo. No fim do dia, a mãe atípica está sangrando por dentro, cheia de medo, dúvidas e cansaço. Mesmo assim, precisa sorrir para os filhos, esconder a própria dor e fingir que está bem para que eles também fiquem.
“O autismo não afeta apenas a criança”.
Ele atravessa todos da casa.
Mas, quase sempre, é a mãe quem suporta o maior peso só e em silêncio.
O maior desafio é buscar forças onde não tem para não desabar.