Cinzas da alma

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 17 de Março de 2026 ás 11h 38min

Cinzas da alma

 

A casca é lisa,

como pedra de rio polida.

O toque convida

a um entendimento suave,

mas a superfície esconde

a paisagem interna.

 

Por fora, a alma se veste

em cores que a luz toca bem,

um sorriso que desarma,

olhos que parecem fontes

de água clara e mansa.

 

Mas, se você cavar um pouco

além da primeira camada de pó,

o cheiro muda.

Não é terra fértil:

é fumaça antiga.

 

Dentro, o fogo se apagou há muito.

Restaram apenas as cinzas frias,

o resíduo fino

do que um dia ardeu com tanta força

que se consumiu inteiro.

 

São montanhas de ausência,

o espectro do calor

que não aquece mais ninguém.

A alma é vasta,

e nela jazem os restos

de tempestades passadas

e juras esquecidas.

 

A cinza é a memória da chama,

o peso que ninguém vê

quando a mão se estende

para pegar a lembrança.

É a poeira que se acumula

no silêncio dos cômodos vazios.

 

E a alma, por fora, continua a sorrir,

a dançar levemente

no ritmo da música alheia.

Ela aprendeu a fingir a leveza

enquanto carrega no peito

o peso morto

da combustão completa.

 

É um paradoxo que respira,

uma jarra que parece cheia de orvalho,

mas está repleta de fuligem fina.

Esperando, talvez,

que um vento forte

ou uma lágrima inesperada

venha soprar um pouco

e revelar a verdade

dessas cinzas internas

que insistem em permanecer.

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