Sinopse:
Uma chuva atravessa o que é visto e revela o que é sentido. Entre silêncios, olhares que passam e afetos que não pousam, a água encontra caminho por dentro.
Chuva Interna
Chovia.
Chovia devagar, como quem insiste.
A água descia pelos corpos, mas era outra chuva que pesava. Chegavam em silêncio, livros junto ao peito, passos molhados, olhos ausentes. Tudo estava úmido — menos o afeto.
De repente, dentro.
O ar fechado, os gestos contidos. Os rostos passavam por mim sem pouso, sem nome, sem demora. Olhavam como quem atravessa.
Aproximei-me.
Uma vez.
Outra.
Gestos pequenos, quase uma prece. Ainda havia em mim um fio — fino, frágil — de espera. Nada voltou. Só o frio, polido, exato.
Então o peito abriu.
Abriu como terra encharcada.
E a tristeza caiu inteira, sem pedir passagem. Chorei baixo, choveu fundo. Porque o desprezo não grita — ele escorre. E afoga devagar.
O silêncio ficou.
E eu acordei com a água caindo por dentro.