Há perguntas que nasceram antes da minha voz.
Caminham por dentro de mim
como rios que desconhecem o mar,
e, ainda assim,
jamais desistem do horizonte.
Quem foi que ensinou o tempo
a colecionar despedidas
enquanto chamava isso de amadurecimento?
Por que o coração,
esse velho artesão de ausências,
continua costurando esperanças
com linhas tão frágeis
que qualquer amanhecer pode desfiar?
Não me respondam.
Há respostas que envelhecem
no exato instante em que são pronunciadas,
enquanto uma boa pergunta
atravessa séculos
sem perder o brilho da primeira inquietação.
Talvez a alma
não tenha sido criada para encontrar,
mas para procurar
com a delicadeza de quem sabe
que cada descoberta inaugura
um novo desconhecimento.
Carrego em mim
uma biblioteca de silêncios.
Cada página em branco
guarda uma verdade
que recusou a prisão das palavras.
É por isso que, às vezes,
o que não digo
faz mais sentido
do que todos os discursos
que aprendi a repetir.
A existência
é uma ponte suspensa
entre aquilo que recordamos
e aquilo que nunca fomos,
embora carreguemos sua saudade
como se um outro eu,
esquecido pelo universo,
ainda respirasse em algum lugar.
Quem somos
quando ninguém nos nomeia?
Seremos apenas
a sombra das escolhas,
ou a luz invisível
que permaneceu intacta
em tudo aquilo
que não tivemos coragem de viver?
Aprendi que a verdade
não mora no ponto de chegada.
Ela prefere as encruzilhadas.
Habita os instantes
em que a certeza vacila,
quando o pensamento abandona o orgulho
e aceita caminhar
de mãos dadas com o mistério.
Talvez Deus
não tenha escondido as respostas.
Talvez tenha semeado perguntas
para que a humanidade
nunca confundisse conhecimento
com sabedoria.
Desde então,
ando recolhendo interrogações
como quem recolhe sementes.
Nem todas florescem.
Mas cada uma
transforma discretamente
o solo onde piso.
E compreendo,
com a serenidade dos que desaprenderam a pressa,
que viver
não é alcançar o último significado.
É permanecer disponível
para o espanto.
Porque há um instante,
entre o pensamento e o silêncio,
em que o universo respira dentro de nós.
E é justamente ali,
onde nenhuma certeza consegue permanecer,
que o verso deixa de procurar respostas
e se torna,
ele próprio,
a pergunta que faltava ao mundo.