Cartas que o mar levou
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 11 de Março de 2026 ás 21h 07min
Cartas que o mar levou
A areia guarda segredos: brancos de papel dobrado e molhado.
Ondas sussurram promessas desfeitas,
tinta borrada que o sal desfez.
Eram cartas de amor não lidas,
talvez pedidos de desculpa esquecidos,
contas de um tempo que não volta mais,
ou apenas o desenho ingênuo de uma criança.
O carteiro do oceano, impiedoso,
não conhece endereço de retorno.
Leva tudo para o fundo azul,
onde a luz se torna turva e lenta.
Eu vejo na espuma branca as bordas desfiadas dos envelopes,
rasgados pelo tempo e pela correnteza,
memórias que se tornam água salgada.
Cada maré alta traz um fragmento,
um pedaço de verso ilegível,
uma saudade que o vento tenta secar,
mas que a umidade da praia insiste em manter.
Quem escreveu esperava resposta.
Quem esperava, nunca soube da viagem,
da rota sem bússola,
da entrega impossível.
O mar é um arquivo vasto e silencioso,
onde as palavras viram conchas vazias,
e os corações, pedras polidas pelo ir e vir.
As cartas que o mar levou não foram perdidas,
apenas redistribuídas,
transformadas em névoa,
em parte da vastidão que tudo abraça.
E eu continuo a olhar o horizonte,
na esperança vã de um papel flutuando,
uma única palavra que o oceano, por acaso,
devolva à minha margem.
Mas ele guarda seus segredos,
as cartas que o mar levou,
para sempre,
no seu silêncio profundo e azul.