Cartas abandonadas
| Conto breve contemporâneo | Pequenas histórias para entender a vida | Manoel R. LeitePublicado em 20 de Abril de 2026 ás 05h 30min
Helena conhecia a resposta, mas a memória, vez ou outra, gosta de se fingir de distraída.
Escrevera duas cartas nos primeiros meses. A primeira contava sobre a pensão onde morava, a colega de quarto que falava dormindo, o estranhamento da cidade nova, a descoberta de uma praça bonita perto da escola. A segunda, mais breve, confessava saudade do café coado da mãe, do quintal de casa e das conversas que nunca tivera coragem de nomear. Depois viera a correria dos estágios, a exigência das provas, o convívio com novas pessoas, a sensação de que responder ao passado atrasaria a construção do futuro. Raul mandara três cartas. Na última, perguntara menos. Contara do trabalho na loja do tio, do adoecimento do próprio pai, da praça central em reforma e de uma festa de junho em que ninguém dançara direito porque faltara sanfona. O tom era quase o mesmo, mas a esperança diminuíra entre as linhas. Helena leu, guardou, adiou a resposta e, ao adiá-la, fez o que tantos fazem sem perceber: entregou ao silêncio uma tarefa que talvez só a presença cumprisse.
O alto-falante da rodoviária chamou uma linha para o interior. Helena piscou, voltando ao presente. Ao lado dela, uma moça falava ao celular com alguma impaciência:
_ Não, mãe, eu já falei que chego. O ônibus atrasou. Não precisa ligar de novo.
Helena sorriu quase sem querer. Havia ternura até nas impaciências quando ainda existia alguém esperando do outro lado.
_ Desculpa. - disse a moça ao notar o sorriso. - É que ela fica nervosa.
_ Deixe que fique. - respondeu Helena. - Um dia a gente sente falta até disso.
A moça a olhou com curiosidade curta, mas não prosseguiu. Voltou ao celular. Helena recostou-se no banco e respirou fundo. O atraso persistia. O céu da tarde escurecia devagar. Nas poças deixadas pela chuva da véspera, as luzes começavam a se refletir.
Foi então que viu, do outro lado do saguão, um homem alto, de cabelos já inteiramente grisalhos, conversando com o atendente da lanchonete. Não o reconheceu de imediato. Reconhecer alguém depois de décadas exige que o rosto do presente aceite carregar o desenho do passado. Ainda assim, havia algo no modo como ele apoiava uma mão sobre o balcão, no leve inclinar da cabeça ao escutar, na economia dos gestos. Ela olhou uma vez, desviou, tornou a olhar. O coração, esse velho indiscreto, adiantou-se antes da certeza.
O homem virou-se. Era Raul. Não havia dúvida. O tempo lhe marcara as pálpebras, alargara o rosto, endurecera um pouco os ombros. Mas o olhar continuava o mesmo: atento sem alarde, como se visse mais do que a cena oferecia. Ele também a reconheceu. Helena percebeu no instante exato em que a expressão dele atravessou surpresa, memória e contenção.
Nenhum dos dois sorriu logo.
Raul veio na direção dela com passos medidos, parando a uma distância respeitosa, como se entre eles ainda existisse a necessidade de pedir licença.
_ Helena.
A voz trazia menos juventude e mais dureza.
_ Raul.
_ É você mesma?
_ Até onde foi possível.
Ele soltou um riso breve.
_ Continua respondendo assim.
_ E você continua chegando perto da frase e deixando o resto para o outro entender?
_ Nem sempre funciona.
_ Na verdade, às vezes funciona demais.
Ficaram por um segundo sem saber o que fazer com as mãos, com a lembrança, com os anos todos colocados de repente entre dois bancos de rodoviária.