Carta para você que, como eu, também teve medo

| Cartas | 2026/8 Antologia A quem ainda escrevo? | Dorenice Flor Da Cruz
Publicado em 31 de Agosto de 2026 ás 10h 03min

Escrevo para você que recebeu uma notícia que nunca imaginou ouvir. Para você que, depois de um diagnóstico, descobriu que uma única palavra poderia mudar tantas coisas dentro e fora de você.

Talvez o medo tenha chegado antes de qualquer explicação: medo da doença, do tratamento, da dor, das mudanças no corpo e do amanhã. Eu sei que não é fácil. Quando ouvimos falar em quimioterapia, pensamos nas histórias alheias e sofremos por antecipação.

Mas preciso lhe contar algo que aprendi na pele: nem tudo o que me disseram que aconteceria com os outros aconteceu comigo. Cada corpo reage de um jeito e cada caminhada é única.

Durante o meu tratamento, criei um mantra que repetia constantemente para o meu próprio corpo. Conversava com as minhas células de defesa e dizia:

“Peguem a parte boa da quimioterapia e joguem a parte ruim somente no câncer. Expulsem junto tudo o que não faz bem para o meu corpo e para a minha saúde.”

 

Essa conversa diária me ajudou a olhar para a medicação como uma aliada de cura. Não foi fácil, mas estou vencendo. Hoje, olho para trás com gratidão por ter passado pela quimioterapia e sigo em frente, aguardando com esperança a próxima etapa: a radioterapia.

Se o medo vier muito forte, não brigue com ele. Diga: “Eu sei que você está com medo. Eu também estou. Mas vamos atravessar isso juntos.” Você não precisa ser forte o tempo todo. Pode chorar, ter dúvidas, sentir raiva, cansar e pedir ajuda. Nada disso diminui a sua coragem. Coragem também é levantar em um dia difícil e continuar.

Não carregue o tratamento inteiro de uma só vez sobre os seus ombros; carregue apenas o dia de hoje. Viva uma consulta de cada vez, uma sessão de cada vez. Deixe espaço para a esperança, para um café, uma conversa e para os pequenos momentos que continuam existindo.

O diagnóstico não apagou quem você era e o tratamento não apaga quem você é. O medo pode até sentar ao seu lado, mas não entregue a ele o volante. Segure a mão da coragem e dê o próximo passo.

Com carinho,

De quem viveu essa jornada, aprendeu a conversar com o próprio corpo e continua vencendo.

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