CARTA PARA NENÊ

| Cartas Literárias | 2026/8 Antologia A quem ainda escrevo? | Bernadete Crecencio Laurindo
Publicado em 03 de Agosto de 2026 ás 19h 08min

 

Carta para Nenê

 

Sinop, 15 de agosto de 2026

 

Saudosa Nenê

 

Tempos, muitos, separam a Nenê da Bernadete, teu nome de batismo.

Nenê, menina que ganhava colo, cafuné, cantiga de ninar, vestido de bolinhas com três saias, bem rodado e boneca, pelo natal; fazia birra que era a graça dos irmãos, mas rendia, vez ou outra, séria bronca do pai e da mãe.

Ah, Nenê, eu me lembro de ti!

Eu, Bernadete, te escrevo agora esta carta.

Muita saudade! Tentei te trazer comigo, vida afora; às vezes, era possível, eu me agarrava a ti, te trazia, meio disfarçada na sisudez de uma Bernadete adulta. Tentava participar contigo, de situações e ambientes convencionais, onde só se falava sério, de coisas importantes, como “vencer na vida”, “ser sempre o melhor”, “conquistar os primeiros lugares”, “ser admirado para ser feliz”, essas coisas... Aí, tu não podias entrar e eu tinha que te deixar para trás.

Tu eras teimosa, Nenê. Às vezes, em situações em que se exigiam seríssimas regras sociais, lá vinhas tu, com tuas graças, tentando desfazer a rigidez do ambiente.

Aos poucos, fui te calando, te afastando, te emudecendo, até que finalmente ficaste pelo caminho e eu segui a minha estrada.

Melhor assim. Temos tempos diferentes, na distância dos nossos tempos.

Tu ficaste. Menina feliz, amada, de cabelinhos loiros encaracolados, eras a alegria dos irmãos e do pai e da mãe. Eu segui, caminho à frente, muito o que fazer. Deixei contigo grande porção dos meus risos, da ternura melhor e mais cristalina, da confiança no amanhã, nas pessoas. Deixei contigo a companhia e a proteção do pai, da mãe e dos irmãos.

Não imaginas, Nenê, que eles também, todos eles, a pouco e pouco, cada um a seu tempo, ficaram pelas estradas da vida e me deixaram caminhando sozinha.

Ah, menina, mas não imaginas... te lembras daqueles sonhos que sonhavas, contemplando as figuras de um velho livro, que mostrava uma cachoeira imensa, que se chamava “Niágara”? E do quadro da sala de jantar, que tinha figuras da Terra Santa, do Egito? E da tal aurora boreal, que a Beatriz contava que aparecia lá no céu do fim do mundo? Essas histórias todas que os irmãos contavam e te faziam sonhar que um dia tu irias ver? Pois é, em tua homenagem, eu realizei todos aqueles teus sonhos e tenho alguns outros ainda a realizar.

Tu foste tão feliz, Nenê e eu sou feliz, me lembrando da tua felicidade. Tu, no teu tempo, cheia de fantasia, sonhaste, sonhaste muito e me ajudaste, com isso.

No teu tempo, tiveste a companhia do pai, da mãe, dos irmãos. Tiveste o carinho deles, a confiança que te inspiravam, suas canções que embalavam teu sono e que dissipavam os teus medos. Bom que essa felicidade ficará sempre contigo; ninguém, nem mesmo o tempo, senhor de todos os destinos, poderá mudar essa história feliz.

Eu seguirei o meu caminho... aquele mesmo que me viste seguir sem ti. Quando a saudade insiste, olho para trás, e uma réstia luminosa de lembrança vem me dizer que estás a um passo de mim, que posso até te sentir, mas o tempo, o tempo meu, que me cravou tantas histórias depois que me fui de ti, ele me diz que não, que somos tempos diferentes e que tempo não dá tempo ao tempo.

Fico por aqui, Nenê.

Até logo, até que um sonho, uma saudade ou uma reminiscência se rebele contra a intransigência do tempo e promova o encontro do passado com o presente.

Aí, a gente se vê. A Bernadete e a Nenê se encontrarão, alheias à imposição do tempo. Então nos daremos as mãos e ao som de divertida cantoria, numa ciranda rodopiaremos pelos sonhos de ser feliz.

Abraço

Bernadete

 

Comentários

Belo texto, por nada deste mundo podemos nos afastar da nossa criança interior por mais que já tu esteja crescida. Não esqueça jamais, a Neném do passado só cresceu, mas ainda precisa de amor, compreensão e colo

Keila Rackel Tavares | 03/08/2026 ás 22:15
Responder

Verdade, querida Poetisa, muitas vezes, ao longo do caminho, é a nossa criança que encontra uma flor, por entre pedras, e suavisa e embeleza a caminhada. Grata!

Bernadete Crecencio Laurindo | 04/08/2026 ás 19:04

Aqui há uma mensagem universal e humanista. O exercício poético desta carta quer nos dizer que, independentemente da idade e dos caminhos percorridos, guardar um espaço de amor e colo para nossa criança interior é essencial e profundamente salutar!

Lorde Égamo | 04/08/2026 ás 11:40
Responder

Grata, prezado Poeta! É isso, é a criança oculta no coração, na alma, que abranda muitos dos dias amargos, que ilumina muitas tardes nubladas e tristes.

Bernadete Crecencio Laurindo | 04/08/2026 ás 19:10

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