Carta ao Sol

| Cartas Literárias | 2026/8 Antologia A quem ainda escrevo? | Manoel R. Leite
Publicado em 31 de Agosto de 2026 ás 14h 27min

Terra, 31 de agosto de 2026

 

Admirável Sol,

 

Sei de seu poder, energia e fonte de vida. Sei também que a vida hoje nos deixou distantes. O ser humano aprendeu muitas coisas, mas acho que a principal de delas é reclamar de tudo. Da intensidade da natureza, do seu brilho, da chuva que não vem, da chuva que vem, do vento ou da falta deles. Penso que não deveríamos nos chamar seres humanos, pois ignoramos o húmus de nossa origem, não estamos mais ligados a ele. Fugimos da natureza, nos abrigamos contra tudo que é natural e saudável.

Trabalho muito, cada vez mais acelerado, e, por isso não me lembro quando foi a última vez que te contemplei, que conversei contigo. Estou no ar condicionado a maior parte do tempo, fujo de teu calor, de tua claridade. Apenas lâmpadas artificiais iluminam o meu dia, meus olhos enxergam o mundo e a natureza através de uma tela, fria sem o seu calor com pixels de resolutividade e, quase nenhuma naturalidade.

Peço que me compreenda, como alguém que aprendeu a aprisionar os pés em sapatos. Assim sou eu aprisionado em meu mundo de proteção, que não me dar mais solução, apenas trabalhos, doenças e as vezes remédios, vitaminas e suplementos. Pois me falta tempo de ser natural, então consumo natureza em comprimidos. Consumo plástico colorido com sabor, e finjo acreditar que é mais saboroso que manteiga. Agora a modernidade chegou de fato, já não bastava proteínas vegetais ou em barras. A modernidade agora é carne produzida em impressora 3D, são mais bonitas, dizem por aí você escolhe até o marmoreio, mas não sei do que são feitas, pelo que eu ouvir falar outros plásticos com aparência de encher os olhos, e, destruí o fígado. Mas a modernidade nunca para essa tal carne 3D já é coisa do passado, como dizem atualmente. “É tão anos 90”. A tendência agora é outra carne completamente sintética, feita em laboratório: não estraga, não precisa da natureza, não gera resíduo, e, acima de tudo não alimenta nem o corpo nem a alma.

Tem uma expressão muito antiga que somos o que comemos. Nesse caso estou me tornando máquina programada para fugir da natureza, e, principalmente, acreditar que ela é inimiga não me fazendo bem.

Sei de seu poder e sabedoria. Quando possível te verei novamente, mas não por intermédio de uma tela. Apreciarei o seu calor, conforto e tudo mais que nutre a terra. Mas por enquanto continuo em meu abrigo da luz, do calor, dos nutrientes, da paz, da realização e da felicidade.

 

Com esperança,

Humanidade.

 

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