CARTA AO LEITOR
| Cartas | 2026/8 Antologia A quem ainda escrevo? | Eidi MartinsPublicado em 29 de Agosto de 2026 ás 19h 26min
CARTA AO LEITOR
Caríssimo,
Que as inspirações poéticas o encontrem
aberto ao magnífico mundo da leitura.
Como está?
Lendo muitos livros?
Eu estou em meio ao caos e à correria dos dias. Confesso que escrever tem sido difícil. O tempo anda curto para tantos afazeres, mas hoje me bateu uma vontade bonita de escrever e contar um pouco sobre o meu trilhar pela escrita.
Eu me apaixonei pela escrita sem saber te datar exatamente quando. Minha mãe foi professora de alfabetização. Me alfabetizou mesmo antes de eu iniciar minha vida escolar e me incentivou à leitura. Talvez tenha sido esse o primeiro pontapé.
Meus primeiros escritos nasceram ainda no percorrer da minha adolescência, quando tudo me parecia maior: os sentimentos, os sonhos, as vontades, as descobertas. Convenhamos, nessa idade, o coração fala alto e a gente ainda não aprendeu a mascarar aquilo que sente. Não é verdade?
Foram muitas folhas rabiscadas, palavras escritas às pressas, pensamentos que procuravam um lugar para existir. Muitas dessas folhas se perderam em gavetas, ficaram esquecidas em cadernos antigos ou simplesmente foram levadas pelo tempo. Mas acredito que nenhuma palavra se perde completamente. Algumas apenas esperam o momento certo de voltar.
Com o passar dos anos, continuei escrevendo.
Escrever tornou-se uma maneira de conversar comigo mesma, de compreender o que sentia, de dar nome às emoções e guardar aquilo que, de outra forma, talvez se perdesse. Descobri que gosto de escrever sobre sentimentos porque eles são feitos de tantas nuances.
Alguns sentimentos chegam como brisa leve, outros chegam como tempestade. Há os que doem, os que aquecem, os que deixam saudades e os que não nos abandonam mesmo quando tudo se vai.
Foi assim que fui percorrendo os caminhos da escrita. Sem muitas regras, sem saber exatamente onde cada palavra me levaria. Fui experimentando a escrita livre, deixando que meus pensamentos encontrassem o papel e que meus sentimentos escolhessem suas próprias palavras.
Sabe, aprendi que nem todo poema nasce pronto. Algumas vezes, ele nasce apenas como uma pequena frase, uma lembrança, uma imagem ou uma inquietação. Depois cresce, toma forma e, quando percebo, já se tornou poema.
E talvez esteja aí uma das maiores alegrias de escrever: não saber exatamente onde meus escritos vão chegar.
Quando escrevo, a palavra nasce em mim. Mas, depois que encontra o leitor, ela já não me pertence inteiramente. Cada pessoa a recebe de um jeito. Uma mesma poesia pode despertar uma lembrança em alguém, trazer conforto a outro, provocar saudade em outro ainda. E isso realmente me encanta.
Gosto de imaginar que uma palavra minha pode encontrar alguém justamente no dia em que esse alguém esteja precisando dela. Talvez seja esse um dos motivos pelos quais continuo escrevendo.
É estranho, mas existe uma alegria silenciosa em colocar no papel aquilo que mora dentro de mim e, algum tempo depois, descobrir que outra pessoa se reconheceu naquilo que eu escrevi.
Eu acredito que os sentimentos também podem viajar através da escrita.
Sim... Viajam em páginas, atravessam distâncias, passam de mãos em mãos e encontram corações que talvez nunca conheçamos. E eu gosto de imaginar essa viagem.
Gosto de saber que aquilo que um dia escrevi sozinha, talvez em uma tarde qualquer, entre pensamentos e silêncios, pode chegar até você. Pode te fazer companhia, despertar uma memória, provocar um sorriso ou simplesmente ficar por alguns instantes dentro do seu pensamento.
Ainda tenho muito a aprender, muito a escrever e, principalmente, muito a sentir. Porque, enquanto houver sentimentos aqui dentro, haverá palavras esperando para nascer.
Não sei quantas páginas ainda escreverei, nem quantos poemas ainda encontrarei pelo caminho. Mas sei que quero continuar escrevendo sobre o amor, a saudade, os encontros, as perdas, os sonhos, a vida e tudo aquilo que faz meu coração acelerar.
Quero continuar porque escrever me faz bem. E porque, de alguma maneira, quando uma poesia encontra um leitor, ela deixa de ser apenas minha e passa a ser nossa.
Por isso, caro leitor, quando tiver em suas mãos um livro meu, não procure apenas as minhas palavras. Procure também as suas lembranças, os seus sentimentos, aquilo que talvez tenha ficado guardado em alguma gaveta do tempo.
E, se alguma poesia minha encontrar você, acolha-a. Talvez ela tenha vindo de longe apenas para lhe fazer companhia.
Eu desejo que minha escrita cruze o seu caminho e encontre o seu destino.
Quando quiser,
pode me escrever também.
Com afagos quentinhos,
Eidi Martins
Peixoto de Azevedo/MT,
29 de agosto de 2026.