CARTA A QUEM EU ERA
| Cartas Literárias | 2026/8 Antologia A quem ainda escrevo? | Silvia Dos Santos AlvesPublicado em 22 de Agosto de 2026 ás 09h 42min
Querido eu de antes,
escrevo porque há coisas que só conseguimos dizer quando já não podemos voltar.
Você ainda não sabe, mas haverá dias em que sentirá saudade de pessoas que continuam vivas. Haverá portas que se fecharão sem despedida, conversas interrompidas por um silêncio que ninguém saberá explicar e nomes que, mesmo esquecidos pelos outros, permanecerão acesos em algum canto da sua memória.
Não tenha pressa de compreender.
Você vai descobrir que crescer não é deixar de sentir medo. É aprender a caminhar carregando-o pela mão. Vai perceber que algumas perdas não chegam para levar alguém, mas para levar de nós a pessoa que éramos quando aquele alguém estava por perto.
Também aprenderá que nem todo adeus acontece na última vez em que vemos alguém. Às vezes, o adeus começa muito antes, numa mudança pequena de voz, numa mensagem que demora demais para chegar, numa intimidade que vai ficando do tamanho de uma lembrança.
E haverá culpa.
Você vai se perguntar se poderia ter dito mais, ficado mais, amado melhor. Vai revisitar frases antigas procurando, entre as palavras, uma possibilidade de conserto. Não encontrará.
Ainda bem.
Porque um dia entenderá que a vida não é feita apenas do que conseguimos salvar.
Algumas coisas precisam terminar sem que isso signifique fracasso.
Quero que saiba também que você sobreviverá às versões de si mesmo que hoje parecem definitivas. Aquele que você é agora não será o mesmo daqui a alguns anos ,e isso não é uma traição. É continuidade.
Não se envergonhe das mudanças.
Você ainda vai trocar certezas por perguntas, planos por caminhos e algumas presenças por saudades. Vai aprender a morar em si mesmo depois de passar tanto tempo procurando casa nos outros.
Quando isso acontecer, talvez você finalmente compreenda esta carta.
Eu não escrevo para pedir que você faça tudo diferente.
Escrevo para pedir que esteja presente.
Olhe demoradamente para quem você ama. Escute até o fim. Diga “eu te amo” antes que a frase pareça necessária. Tire fotografias mesmo quando achar que aquele momento merece apenas ser vivido. Guarde bilhetes. Perdoe, quando puder. Vá embora quando precisar. E, sobretudo, não deixe para depois aquilo que depende apenas de coragem.
O futuro não é cruel por esconder o que vem.
Ele apenas não nos pertence ainda.
Hoje, eu sei que você tinha medo de perder tudo.
Eu também tenho.
A diferença é que agora sei que, mesmo depois das perdas, alguma coisa permanece.
Nós.
E talvez seja essa a coisa mais bonita que o tempo não conseguiu levar.
Com a ternura que só o futuro conhece,
você, alguns anos depois.
Silvia Santos