"Carta à minha filha: Você me ensinou a ir além..."

| Cartas | 2026/8 Antologia A quem ainda escrevo? | Marlete Dacroce
Publicado em 12 de Agosto de 2026 ás 15h 44min

"Carta à minha filha: Você me ensinou a ir além..."

 

Minha filha

Um ano depois do meu casamento, eu me sentia completamente só.

Foi então que descobri que você estava a caminho.

Foram nove meses de medo, cuidado, espera e ansiedade. Uma espera que parecia sem fim. Eu queria conhecer seu rosto, tocar suas mãos, ouvir seu choro. Ainda não sabia se seria menino ou menina. Naquela época eu sabia tão pouco sobre a vida... Era ingênua, tinha pouca informação e muitos medos.

E o medo, muitas vezes, parecia maior do que eu.

Até que a bolsa rompeu.

Era chegada a hora.

Mas você não nasceu.

Foram horas de medicamentos tentando fazer com que você viesse ao mundo.

O tempo passava e nada acontecia.

Até que chegou o momento da decisão: cesariana. Não havia outra opção.

E então você veio.

Quando finalmente no quarto, lembro-me de uma sensação imensamente marcante e profunda, ao te olhar para você pela primeira vez. Lembro-me de dizer:

— Vem com a mamãe!

Naquele instante, sem compreender completamente o significado daquela frase, eu soube que minha vida havia mudado para sempre.

Eu não me sentiria mais sozinha.

Você chegou trazendo a energia de dez pessoas juntas. Era agitada, brava, chorona, intensa. E eu, no meio de um turbilhão de dedos apontados, opiniões e, julgamentos, só conseguia pensar em uma coisa precisava ser forte para te proteger de toda a maldade.

Eu ainda não sabia o que estava acontecendo.

Você também não sabia.

Ninguém sabia.

Anos mais tarde, começamos a compreender que havia algo diferente na maneira como você sentia o mundo. Vieram as descobertas: TEA e TDAH e mais tarde TOD.

Hoje, olhando para trás, muitas coisas começam a fazer sentido.

Você sempre sentiu o mundo com uma intensidade que ninguém conseguia compreender.

O banho podia ser um sofrimento. Alguns sons eram quase insuportáveis: Gritos de porcos, motosserras, determinados tipos de motores.

Você chorava desesperadamente diante de estímulos que, para outras pessoas, pareciam banais.

O sono também nunca foi simples. Havia noites em que você não dormia, noites de desassossego e terror, pesadelos frequentes.

Quando bebê no colo escondia o rosto entre o braço da mãe par cinco minutos de sono.

Seu corpo também aprendeu a sentir de maneira diferente.

Havia momentos em que uma pequena mudança, uma roupa ou determinado tecido poderia causar uma crise enorme.

O vento do ventilador era insuportável.

Sensibilidade no couro cabeludo. Os cabelos sempre soltos, dores de cabeça,

Muitas dores de ouvido e diagnótico de 70% de perda auditiva fizeram parte da sua história.

E há o outro lado dessa sensibilidade que às vezes você se machucava e nem sentia

Seu corpo sempre teve sua própria linguagem.

Havia também as sensibilidades digestivas, os problemas frequentes com determinados alimentos e tantas outras pequenas batalhas cotidianas que, durante muito tempo, ninguém sabia nomear.

A de se fazer as previsões para determinadas ações da rotina cotidiana.

Existiam dificuldades de leitura, escrita e do raciocínio lógico matemático.

A baixa percepção aos  sentimentos e intenções de outras pessoas lhe causaram sofrimento.

E em outro momento uma piada poderia ser sentida como uma agressão.

Você viveu muitas repetições, estereotipias, andar de um lado para outro, sem rumo, em movimento para acalmar a mente em alta voltagem.

Com o passar do tempo veio à necessidade de uma rotina, organizada e previsível.

E, ao mesmo tempo, há algo extraordinário em você.

O hiperfoco. A capacidade de mergulhar profundamente naquilo que desperta seu interesse.

Você aprendeu, com o tempo, a se camuflar diante das dificuldades sociais.

Aprendeu a falar, a observar mais, a encontrar caminhos para transitar por um mundo que nem sempre estava preparado para compreender a sua maneira de existir.

Foi taxada como: Escandalosa, briguenta, possessiva, terrível e, Louca.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas você foi crescendo.

E eu fui crescendo com você.

Talvez essa seja uma das maiores verdades da minha vida:

Você me ensinou a aprender coisa que eu jamais imaginei aprender.

Você me fez buscar respostas. Fez-me conhecer para poder compreender.

Fez-me ultrapassar limites que eu nem imaginava que poderia ultrapassar diante da incompreensão das pessoas, colocar você dentro de um abraço e dizer ao mundo:

"Ela não era errada. Ela apenas sente o mundo de maneira diferente"

Ninguém me ouviu, ninguém me entendia, apenas julgavam.

Hoje eu sei que o Autismo e o TDAH não define quem você é.

Eles fazem parte da sua história.

Você é muito maior.

Mesmo com todas as dificuldades, você se superou. Conquistou seus espaços. Construiu sua trajetória. Tornou-se uma profissional admirável, uma mulher que encanta pela força, pela inteligência e pela capacidade de seguir em frente.

E hoje vejo você também como mãe.

Uma mãe que busca compreender, educar, proteger e preparar sua filha para a vida. Uma mãe que deseja que ela cresça livre, ética, responsável e capaz de construir seu próprio caminho.

Quando olho para você, sinto orgulho.

Muito orgulho.

E preciso te dizer uma coisa. Talvez eu não tenha sido a mãe que você esperava:

Por isso me perdoe se em algum momento, não fui à mãe que você desejava, mas pode ter a certeza que fiz o melhor que pude diante do nada que me foi oferecido.

Não quero justificar meus erros. Quero apenas que você saiba que, dentro dos limites do tempo, fiz tudo o que pude.

Atravessei os limites da dor para cuidar de você.

Enfrentei medos.

Enfrentei julgamentos.

Enfrentei a ignorância.

E, muitas vezes, enfrentei a mim mesma.

Eu queria que você conquistasse o seu lugar no mundo.

E você conquistou.

Mas, no caminho, descobri que não era apenas você quem estava sendo transformada.

Você também me transformou.

Você me fez ir além...

Fez-me conhecer para entender.

Fez-me questionar aquilo que eu acreditava saber.

Mostrou-me uma força que eu não sabia que tinha.

Talvez você tenha chegado à minha vida para que eu jamais mais vivesse a solidão acompanhada.

Você chegou pequena, intensa, inquieta, chorando, sentindo tudo de maneira diferente.

E, sem saber, trouxe consigo uma missão silenciosa:

Ensinar sua mãe a enxergar o mundo pelos olhos de quem sente o mundo de forma diferente.

Hoje, quando olho para trás, já não vejo apenas os dias difíceis.

Vejo uma menina que lutou para ser compreendida.

Vejo uma mulher que aprendeu a se conhecer.

Vejo uma profissional admirável.

Vejo uma mãe dedicada.

E vejo, acima de tudo, minha filha.

Aquela que um dia eu segurei nos braços e chamei:

— Vem com a mamãe!

— Você veio.

E, desde então, nunca mais caminhamos sozinhas.

 

Com amor, orgulho e gratidão.

Mamãe!

 

Comentários

Olá! Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.