Onde vais, pequeno,
tão paciente, tão lento?
Permaneces distante de toda dúvida,
da ansiedade e do medo.
Será que ver-te é o que me resta?
Ou és apenas o que sinto?
O que te atormenta?
Ou será minha tormenta?
Por que ficas tão estático assim?
Anseio um dia ser como tu:
rastejas despreocupado
e, ao mesmo tempo, preocupado.
Um algo?
Há algo?
Para onde vou tão impetuoso, tão apressado?
Estou próximo da dúvida,
da minha própria ansiedade e medo?
Amanhã não sei se estarei aqui,
mas tu ainda estarás —
num lugar que jamais soube?
Não se sabe.
Não me cabe saber.
Nem sabes tu para onde vais.
Tampouco pareces melancólico ou frágil,
mesmo quando vejo em ti meu reflexo —
essa parte que me dimensiona ao nada,
pela soma de tantos outros que te antecederam.
Existe uma lógica infinita na forma de algo?
Do topo da minha cabeça ao casco que te recobre?
Talvez sejamos os menos improváveis companheiros,
justamente por não nos parecermos em nada.
É isso o que nos resta:
em mim, a dúvida da vida;
em ti, a infinita dívida da vida.