Barco cósmico
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 26 de Abril de 2026 ás 10h 00min
Há um barco emperrado nas areias das estrelas.
Antes navegante de galáxias e nebulosas,
suas velas outrora capturavam ventos cósmicos,
e a proa rasgava o veludo escuro,
deixando um rastro de poeira de cometa.
Seus mastros apontavam para constelações desconhecidas,
guiando-o por mares de luz fria,
onde só a gravidade ditava o curso.
Ele viu nascimentos de sóis,
e o lento desmoronar de mundos distantes.
Nas suas cascas, o eco de canções alienígenas,
o murmúrio de civilizações perdidas,
o aroma de planetas de ametista.
Ele era um viajante incansável,
um explorador sem medo do abismo.
Agora, quebrado,
jaz em leitos de luz estelar solidificada,
esquecido pela maré cósmica.
A ferrugem das eras cósmicas cobre seu casco,
e as estrelas, antes suas estradas, agora são testemunhas silenciosas.
Mas mesmo imóvel,
ele sussurra sonhos.
Sonhos de partidas, de chegadas,
de horizontes infinitos que ele já abraçou.
Sonhos de quando as galáxias eram suas vizinhas,
e as nebulosas, campos de flores etéreas.
O vento solar, um sopro fantasma,
move uma astúcia de seu mastro partido,
fazendo-o ranger com um lamento doce,
uma saudade antiga que atravessa o espaço e o tempo.
Ele lembra de viagens audaciosas,
de encontros com seres de pura energia,
de descobertas que mudaram o curso da história galáctica.
Os grãos de areia estelar sob ele
são os fragmentos de estrelas que ele atravessou,
pequenos diamantes que guardam a memória
de sua glória passada.
Cada grão é um sussurro,
uma promessa de que um dia, talvez,
o vento certo retorne,
e o chame de volta para o grande oceano sideral.
Ele sonha com a força que o impulsionava,
com a coragem que o fazia avançar,
com a beleza crua e vasta do universo
que ele desbravou sem hesitação.
Hoje, um museu de poeira e silêncio,
ele guarda em suas entranhas rachadas
a história de um navegador lendário,
um sonho em suspensão,
esperando o despertar de um novo amanhecer cósmico.