Até quando ó Eleito?
Pensamentos | Poesia Existencial | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 29 de Abril de 2026 ás 14h 32min
Até quando, ó Eleito
Até quando, ó Eleito,
terei que molhar os teus pés
com minhas lágrimas?
O chão embaçado
reflete a luz fraca do meu pranto.
Cada gota que cai
carrega um peso
de silêncio guardado,
de esperanças tecidas
e desfiadas.
Os lírios nas minhas mãos
começam a inclinar as cabeças.
As pétalas brancas, outrora altivas,
curvam-se,
encharcadas pela mesma dor
que me corrói.
Eles também sentem o peso,
o ar pesado de súplicas não ouvidas,
o eco mudo dos meus gemidos.
Cada flor, um espelho mudo
da minha aflição.
Lembro-me de quando eram secos,
firmes,
promessas de pureza
que segurava com mãos trêmulas.
Agora, o orvalho que as cobre
é salgado,
um testemunho líquido
da minha devoção cansada.
Até quando, ó Eleito,
este ritual de dor,
este banho de melancolia
em tua presença invisível?
As tuas pegadas,
talvez feitas de nuvens,
talvez de poeira estelar,
permanecem intocadas
pela correnteza dos meus olhos.
E eu aqui,
com as mãos pesadas de beleza frágil,
a assistir o desabrochar
de uma tristeza perene.
Os lírios choram comigo,
sua brancura tingida
pela sombra da minha espera.
Cada folha que murcha,
cada haste que se curva,
é um verso a mais
na canção sem fim
da minha mágoa.
A fragrância doce
se mistura ao amargor
que me inunda.
Será que nunca secará
esta chuva interna?
Será que as flores em mim
nunca conhecerão o sol
sem antes se entregarem
a este dilúvio mudo?
A espera se estende,
longa como a noite sem estrelas,
e os lírios,
o meu único consolo,
continuam a verter
o seu pranto inocente,
refletindo a minha própria angústia
num espelho de orvalho amargo.