AS TRANSFORMAÇÕES DE JANAÍNA

Contos | 2025 - MAIO - Laços de família: Histórias de amor e conexão | Paula Gibbert
Publicado em 05 de Abril de 2025 ás 19h 21min

 

 

 

 

 

 

AS TRANSFORMAÇÕES DE JANAÍNA

— Que susto! O que você está fazendo aí? — perguntei.

Janaína nada respondeu. Somente abaixou a cabeça e, num piscar de olhos, não estava mais ali e, em seu lugar, apareceu uma galinha bem maior que as galinhas comuns. Era preta e tinha um cacarejar bem grave.

Demorei alguns segundos para compreender o que tinha acontecido. Corri para dentro de casa, tranquei a porta e, trêmula, liguei para o meu filho.

— André, você já está vindo para casa?

— Não, mãe, ainda faltam um pouco para o fim do expediente. Por quê? Aconteceu alguma coisa?

Contei com a voz meio estrangulada o que tinha acontecido no pátio do nosso sítio. Há dias, eu via pela janela dos fundos a Janaína rondando a casa. Nas últimas semanas, eu passava a maior parte do tempo dentro de casa. Não abria a porta para ninguém, mas, hoje, eu estava recolhendo os ovos quando a vi.

— Guenta aí, mãe. Daqui a pouco, estarei em casa — disse ele desligando depois de pedir para eu me acalmar.

Quando André chegou, Janaína já não estava mais lá. Eu a tinha visto ir para o fundo do quintal, entrar no potreiro e sumir entre os arbustos. Eu ainda tremia de medo daquela peste.

Meu filho não gostava que eu ficasse sozinha, mas o salário que ele ganhava na loja agropecuária da vila não era suficiente para pagar uma pessoa para me fazer companhia e a minha aposentadoria mal dava para meus remédios. O pasto estava arrendado para o dono do sítio vizinho, mas a renda era pouca. Tínhamos só um ajudante que trabalhava dia sim, dia não, pela manhã para manter o pátio e o galinheiro limpos e organizados. Nos dias em que ele vinha, eu me sentia um pouco mais tranquila.

André insistia que eu deveria sair mais da casa. Cultivar algumas hortaliças na horta ou plantar flores poderia servir de terapia, ele dizia. Porém, eu sentia que não daria conta disso. Não, agora.

Naquela noite, só adormeci bem tarde e sob efeito de calmantes.

Ainda bem que o dia seguinte era domingo; sendo assim, André poderia ficar comigo. Ele aproveitou para fazer uma ronda no pátio do sítio. Verificou pegadas de aves e de outros animais na direção em que eu disse a ele que a tal ave havia passado, mas elas poderiam ser de outras aves. Encontrou também algumas penas as quais poderiam perfeitamente ser das nossas próprias galinhas ou de algum pássaro da região.

Durante a noite, sonhei que a ave voltou para nosso terreiro e, sem mais nem menos, transformou-se na Janaína. Calmamente, afastou-se da nossa casa pela estrada. Era como se ela tivesse que voltar para cá para se transformar em humana de novo. E nessa forma, ela me disse:

−Vim para te dar um aviso, Jordana: você matou minha mãe e vou me vingar.

Acordei sobressaltada chamando por André. Ele veio correndo e perguntou o que havia acontecido e, em poucas palavras, contei-lhe o recado da negra. Ele sabia da trágica morte da mãe da Janaína, mas sabia também que eu não tinha culpa nenhuma nisso.

O nosso sítio era, em grande parte, um terreno bem íngreme e pedregoso. Tinha, inclusive, um paredão de pedra que ficava na parte mais distante do potreiro e qualquer um que caísse por ele, tinha poucas chances de sobreviver visto que, no fundo dele, havia um rio caudaloso no qual apareciam as pontas de grandes pedras.

A mãe de Janaína tinha ido buscar a vaquinha Cinderela, pois sua intenção era tirar um pouco de leite para alimentar a filha pequena, porque seu próprio leite já havia secado. Estava chovendo e como ela estava demorando muito, fui atrás dela. Não a encontrei em canto nenhum do pasto; por isso, fui até a beira do abismo, e vi algo vermelho nas águas do rio. Sabendo que dona Maricota tinha vindo com o mesmo vestido vermelho de sempre, achei que só poderia ser ela.

Voltei para casa o mais rápido que pude e, esbaforida, contei tudo para meu filho. Imediatamente, chamamos o corpo de bombeiros da cidade vizinha e avisamos a polícia. O corpo da Maricota foi resgatado do rio. Janaína mal tinha feito dezessete anos, mas foi obrigada a tomar conta da irmãzinha de três meses e da outra irmã — a Mariana — daí por diante. Não tinha irmãos mais velhos e o pai as tinha abandonado assim que a mãe dera à luz à terceira filha.

Naquele dia, Janaína chorava de raiva e tristeza dizendo que eu tinha empurrado a mãe do paredão. Juro que quando a fui procurar, já a encontrei no rio. Eu estava tendo pesadelos com isso com muita frequência e me sentia mal por isso.

As investigações foram feitas e fui considerada inocente, mas a garota jamais se convenceu desse fato. Prometeu se vingar, mas depois disso, ficou meses sem aparecer no sítio. E agora, justo agora, era resolveu me importunar com essa história novamente.

Janaína parecia ter amadurecido cinco anos em um. Sabíamos apenas que vivia do que conseguia pedindo pelas ruas e casas e que retirava cesta básica na prefeitura todo mês. Como no vilarejo não tinha creche, não podia trabalhar fora porque não tinha com quem deixar as irmãs.

Dois meses se passaram e eu continuava trancada em casa. Só saía para recolher os ovos. O Jonas, nosso ajudante, fazia esse serviço nos dias em que vinha e, nos outros, eu mesma o fazia. Entretanto, eu tinha palpitações nessa hora, espiava por todas as janelas antes de abrir a porta. Tinha medo de me deparar com a Janaína de novo.

Era umas dez horas da manhã de uma quinta-feira e, depois de me certificar de que não havia ninguém por perto, saí para a minha pequena tarefa fora da casa. Meu filho disse que eu não precisava ficar tão temerosa. Eu tomava remédios fortes; mesmo assim, ainda me sentia muito insegura. Eu saía correndo e voltava com os ovos o mais rápido possível.

Naquele dia, deixei a cesta de ovos cair quando uma galinha começou a cacarejar ali por perto. Adentrei na casa batendo a porta atrás de mim com o coração acelerado e molhada de suor apesar do frio do mês de junho. Achei aquele som muito parecido com o cacarejar que ouvi no dia em que Janaína se transformou naquela criatura na minha frente. Quando criei coragem para me mover, espiei pelas janelas, entretanto não vi sinal de que ela ainda estivesse aí.

Por alguns dias, eu não tive coragem de sair para nada, a não ser, ao médico que aumentou a dosagem dos meus calmantes e, por causa dessa medicação, passar a maior parte do tempo dormindo era apenas um dos efeitos colaterais.

Já haviam passado treze meses desde o acidente que vitimou meu marido. O motorista do veículo que fechou a frente do carro em que estávamos, também morreu. Fiquei três dias em coma e bem lentamente estou me recuperando. A pancada na minha cabeça foi tão forte que formou coágulos. Nunca mais fui a mesma. Ainda bem que meu filho não tinha ido conosco naquela visita a minha mãe. Não sei o que teria sido de mim, se eu o tivesse perdido também.

No dia do acidente da dona Maricota, meu marido Carlos tinha ido ao mercado da vila, por isso quem saiu para procurar pela mulher quando percebemos a sua demora, fui eu. Ele também suspeitava de que eu a tivesse empurrado daquele paredão como forma de vingança. Carlos havia tido um caso com Maricota há algum tempo e, pairava sobre ele, a suspeita de ser o pai da segunda filha dela.

Ele negava, mas a forma como ele tratava a mulher e suas filhas desde que o marido dela fora embora, era diferente. Especial. Ele dizia que tinha pena dela por ter sido abandonada pelo esposo e a ajudava no que podia deixando-me estressada. Justamente, por isso, Maricota tinha vindo até nós pedindo se poderia tirar um pouco de leite da nossa Cinderela para tratar sua filhinha.

Depois de mais uma noite mal dormida por causa dos sonhos com a Janaína e com sua estúpida jura de vingança, decidi que era hora de deixar de viver com medo. Levantei-me bem cedo, preparei um café da manhã reforçado, chamei meu filho e disse a ele que resolvi seguir seu conselho. Eu decidira começar a cultivar alimentos na horta para fazer conservas de modo a vendê-las na feira que acontecia todas as quartas na praça da igreja. Até que as hortaliças estivessem prontas para a colheita, eu faria compotas de doces e levaria ovos para vender.

Assim que o André saiu para seu trabalho, peguei meu chapéu e os apetrechos necessários para a lida na horta e me dirigi até lá. Chamei o Jonas para me ajudar a retirar o capim que crescera ali desde que eu a abandonara. Ele fez o que pedi e eu rastelei tudo. Depois, ele cavoucou o terreno, adubou-o e eu peguei uma mangueira para molhá-lo. No fim daquela manhã, eu estava exausta, porém muito satisfeita.

— Meu filho, você trouxe as sementes que pedi? — perguntei ansiosa quando ele voltou para casa na hora do almoço.

— Sim, mãe, está tudo aqui: beterraba, cenoura, pimentão verde e cebola. Eu trouxe também semente de salsa e cebolinha, alface e couve. Estou cansado de comer salada de tomate e repolho. Planta para nós, por favor.

— Claro, filho. Antes preciso ver certinho quais são os melhores dias para plantar cada uma delas.

— Verdade. O Jonas disse que se plantar na lua errada, não produz.

Naquela semana, eu conseguira juntar somente cinco dúzias de ovos e fazer seis quilos de doce de banana para vender. Enquanto estava na minha barraquinha, conversava com outros feirantes sobre a minha ideia e um deles até sugeriu que eu oferecesse minhas compotas e conservas no mercadinho do seu João. Às pessoas que vinham comprar na feira, eu também interrogava falando do meu projeto e pedindo quais produtos desse tipo comprariam.

Fiquei ainda mais animada a partir de então. Eu ficava grande parte do meu dia na horta ou no pomar e o ar puro e o sol estavam fazendo milagres com a minha saúde. Pimentão e alface, cebolinha e salsa foram as primeiras hortaliças que plantei. Para essa atividade, eu não precisava da ajuda de Jonas e nem para transplantá-las no canteiro definitivo ou para regar e arrancar o mato que vinha tão viçoso quanto as hortaliças que eu tinha plantado. Três semanas depois, eu já arrancava as folhas maiores de alface para servir no almoço. Ainda ia demorar uma semana ou duas para que pudesse colher um pé inteiro dessa verdura, mas eu já me sentia vitoriosa.

Meu filho percebeu que eu estava dormindo melhor, muito melhor. Minhas olheiras tinham desaparecido e, meu rosto estava levemente corado. Não tinha mais tido pesadelos e não vira mais a Janaína rondando a nossa casa. Até mesmo as doses da minha medicação, agora, eram menores. O médico disse que acreditava que meus coágulos devem estar desaparecendo, por isso, pediu um exame de imagem para comprovar sua tese.

Quatro meses depois, eu estava colhendo a primeira safra de pimentões. Tinha visto na internet, uma receita para fazer conservas desse vegetal e já a tinha testado e aprovado.

No dia em que levei as primeiras dessas conservas para a feira, voltei desanimada para casa trazendo comigo quase todos os vidros que havia levado. Sorte minha que as compotas doces de laranja e de cidra tiveram boa saída.

No dia seguinte, fui cedo ao mercado do seu João e ele ficou com alguns vidros de conserva de pimentão com a condição de pagá-los somente depois de tê-los vendido.

De volta a minha casa, dirigi-me à horta, pois havia mais pimentões para serem colhidos e preparados para as conservas. Entretanto, soltei um grito assim que abri o portão da horta: a Janaína estava me esperando.

— Pensou que eu tinha esquecido minha promessa? — interrogou-me ela em tão ameaçador.

O sangue desapareceu do meu rosto e desmaiei. Quando recobrei a consciência, Jonas estava do meu lado e me olhava preocupado.

— O que foi, dona Jordana? Ouvi um grito e corri para ver o que era e encontrei a senhora aqui desmaiada — falou ele aturdido.

— Cadê a Janaína? — perguntei levantando-me rapidamente.

— Que Janaína? — perguntou Jonas procurando alguma outra pessoa com os olhos.

— A filha da falecida dona Maricota. Eu me assustei porque ela estava aqui quando cheguei.

— Eu não vi ninguém aqui, não! — exclamou Jonas.

— Mas ela estava aqui. Veio para me lembrar de sua promessa.

— Que promessa? — quis saber o ajudante.

— Ela prometeu se vingar de mim porque pensa que eu empurrei a mãe dela naquele precipício.

— E a senhora empurrou? — perguntou ele curioso.

Senti que ele também carregava essa suspeita consigo.

— Claro que não, Jonas. Quando cheguei lá, ela já estava caída no rio. Eu não acredito que você também desconfie de mim. — falei decepcionada.

— É que o povo fala que a filha mais nova dela também tem uma marca de nascença parecida com a do André e que foi por isso que o marido da Maricota foi embora depois que a menina nasceu. E a senhora poderia estar com ciúmes — defendeu-se o homem.

— O quê? Então, é isso? Por que nunca alguém me contou isso? — reclamei exaltada.

— Não sei, dona Jordana.

— Jonas, vou tomar um banho e você vai me levar até a casa das três. Eu preciso tirar isso a limpo.

— Não é melhor esperar um pouco? A senhora precisa se recuperar do desmaio e seria ideal que o André fosse com a senhora — ponderou Jonas.

— Não quero mais esperar nada. Eu já estou bem.

— Mas, dona Jordana, o André também está envolvido nisso. Se a menina tiver uma mancha parecida com a dele e com a da outra irmãzinha de Janaína, ele vai querer ver também — argumentou Jonas.

— É, tem razão. Obrigada por me ajudar. Vou tomar um banho e comer alguma coisa; pensar um pouco sobre isso. — disse ela depois de alguns instantes.

Quando André chegou, fui ao encontro dele e, antes que ele saísse do carro, eu lhe pedi:

− André, vamos até à casa da Janaína. Preciso ver se a mancha que a irmãzinha dela tem é tão parecida com a tua como dizem.

— O que é que a senhora está dizendo? Quem falou que ela também tem uma mancha parecida com a minha? — perguntou o rapaz sem graça.

— O Jonas. E ele disse também que o marido da Maricota foi embora logo que a criança nasceu porque viu que ela também tem uma mancha parecida com a tua, assim como a da filha do meio.

— Ah! mãe, a senhora vai acreditar no que ele falou? — perguntou André tentando fazer com que a mãe desistisse dessa ideia.

— Filho, vou tirar isso a limpo. O comportamento do teu pai nos últimos tempos faz com que essa suspeita pareça bem possível de ser real. Já falavam que a filha do meio tem uma mancha; agora falam que a menorzinha também tem. Preciso saber a verdade — afirmei decidida.

— Deixa isso pra lá, mãe — insistiu mais uma vez o jovem.

— Não, não e não. Vamos logo para a casa delas.

— Tem certeza, mãe? A senhora pode se machucar — ponderou o jovem.

— Mais machucada e infeliz que estou por causa dessa situação toda não vou ficar. Se isso for verdade, vamos providenciar um teste de DNA porque só o fato de ter uma mancha parecida com a sua, não prova que as meninas são filhas do Carlos — decidiu ela.

— Se a Mariana fosse mesmo filha do papai, você acha que ele não teria assumido? — argumentou André.

— Filho, eu não sei o que pensar e é por isso mesmo que quero ver de perto as tais manchas das meninas.

— Está bem, mãe — disse o filho derrotado.

Ao chegarem à casa das irmãs, Janaína os recebeu de facão em punho e vociferando:

— O que querem aqui?

— Janaína, viemos em paz. Ouvimos falar que sua irmãzinha mais nova também tem uma mancha de nascença parecida como a que André herdou do pai. São essas duas manchinhas vermelhas na nuca — disse ela indicando o local.

Janaína se aproximou devagar de André sem soltar o cabo de sua arma. Olhou demoradamente e confirmou:

−As manchas são bem parecidas mesmo com as da Maninha e da Mariana — disse num tom estranho olhando fixamente para o André.

— Podemos ver suas irmãs? — pedi com ar súplice.

Ela abaixou o braço, virou-se e caminhou em direção à casa. Segui-a e só quando alcancei a porta da habitação, percebi que meu filho continuava parado ao lado do carro. Chamei-o para que me acompanhasse, mas ele parecia hesitante. Por fim, alcançou-me. Estava pálido. Perguntei se ele estava se sentindo mal, ao que ele me respondeu com outra pergunta:

− Você precisa mesmo fazer isso?

— Sim, eu preciso e vou fazer agora mesmo. Você está estranho. O que há com você?

— Vamos acabar logo com isso — disse a Janaína impaciente já com as crianças ao pé de si.

As manchinhas da mais nova eram tais e quais as de André; as de Mariana, eram diferentes, menores e de um vermelho mais vivo.

— Janaína, quero fazer o exame de DNA para ver se as meninas são irmãs de André. E eu te prometo que, se forem, vamos ajudar vocês.

A cor sumiu de vez do rosto de André e ele desmaiou. A moça trouxe um pano embebido em vinagre e passando-o no rosto do meu filho, o jovem voltou a si. Ele se sentou e pediu para sair dali. Combinei com Janaína que eu a avisaria do dia em que faríamos o exame e passaríamos na sua casa para levá-las ao laboratório.

Levei para casa um filho quieto e cabisbaixo.

No dia em que os exames ficaram prontos, quem ficou emudecida fui eu.

Mariana era mesmo filha do meu falecido marido, mas a pequena era filha de André. E, ao olhar para meu filho e percebendo como ele fitava a Janaína, entendi que a mãe da pequena não era a Maricota.

 

 

 

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