“As rachaduras Invisíveis”

Contos | Marlete Dacroce
Publicado em 21 de Janeiro de 2026 ás 17h 53min

“As rachaduras Invisíveis”

 

Ela não soube dizer quando começou. Não houve um dia exato, nem uma frase definitiva. Foi antes, muito antes, quando o corpo percebeu o que a razão ainda insistia em negar.

Ele estava sentado à mesa, o celular virado para baixo, como quem esconde um coração que pulsa fora do ritmo. Um gesto pequeno, quase banal, mas que se repetia com precisão excessiva. Sempre assim. Tela para baixo. Sempre.

Antes, o telefone era apenas um objeto esquecido no sofá, na cozinha, às vezes até no quarto das crianças. Agora, acompanhava-o como uma extensão do corpo. Até o banheiro. Até o silêncio.

Ela tentou racionalizar. Trabalho. Estresse. Cansaço. Todos os nomes possíveis para não chamar o medo pelo nome certo. Mas havia algo novo no ar, não exatamente ausência, mas divisão. Como se ele estivesse ali e, ao mesmo tempo, em outro lugar.

Quando o telefone vibrava, o corpo dele reagia antes da mente. Um sobressalto quase imperceptível. Um músculo tenso no maxilar. Um olhar rápido demais. Ele se levantava para atender ligações que antes colocaria na viva-voz, voltava diferente, às vezes distante, às vezes exageradamente carinhoso, como quem tenta equilibrar uma balança invisível.

Ela sentia. Não sabia explicar como, mas sentia.

Os dias começaram a se fragmentar. Compromissos inesperados. Saídas sem propósito claro. Compras que não podiam esperar. Horários que já não se encaixavam. E, mesmo quando ele estava em casa, não estava inteiro. O olhar atravessava o rosto dela como se buscasse algo atrás da parede. Ela precisava repetir frases. Repetir perguntas. Repetir a si mesma que não estava imaginando.

Quando ousava perguntar, vinha à defesa. Não uma explicação um ataque.

— Você anda desconfiada demais.
— Não dá pra viver sendo vigiado.
— O problema é a sua insegurança.

As palavras vinham afiadas, cheias de convicção. E, pouco a pouco, ela começou a duvidar do próprio chão. Talvez fosse mesmo exagero. Talvez fosse ciúme. Talvez fosse culpa dela.

Mas havia também o corpo.

Às vezes, ele a evitava como se o toque queimasse. Outras vezes a procurava com urgência estranha, sem presença, sem olhar, sem nome. Era sexo sem encontro. Corpo sem vínculo. Ela sentia a diferença, e doía mais do que a ausência.

Ele mudou. Roupas novas. Perfume novo. Um cuidado súbito com a aparência que não era para ela. Arrumava-se para sair sozinho. Em casa, vestia o desleixo confortável de quem já impressionou quem precisava impressionar.

E havia o cheiro.

Ela conhecia aquele corpo há anos. Sabia reconhecê-lo no escuro, no suor, no cansaço. Mas agora algo estava diferente. Sutil. Estranho. Como se outra história tivesse passado por ali antes dela.

Ainda assim, nenhuma prova. Nenhuma cena explícita. Nenhuma confissão.

Só as rachaduras.

Até que um dia, sozinha na cozinha, ela entendeu o que vinha tentando evitar desde o início, a dor maior não era a possível traição  era ter passado tanto tempo traindo a si mesma, silenciando a própria intuição.

Porque, antes de qualquer sinal visível, antes do celular, do perfume ou das ausências, havia algo que nunca mentiu:

Aquela voz baixa, persistente, quase sussurrada, dizendo:
algo não está certo.

E, pela primeira vez, ela decidiu escutar.

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