AS PÉROLAS DO RIO

| Conto | 2025 - Leny Alves Silva e Convidados - Conquistando novo espaço | Edson Bento
Publicado em 07 de Outubro de 2026 ás 16h 09min

AS PÉROLAS DO RIO

 

O rio não mentia. Quando a lua cheia se deitava sobre as águas claras daquela curva profunda, ela se aproximava da margem, onde a terra era úmida e o silêncio da mata protegia seu segredo. Ali, afastando os fios negros e lisos que as tradições de seu povo teimavam em manter inalterados, ela fechava os olhos e mergulhava na própria mente.

No reflexo, não havia a menina da tribo. Havia uma estranha, uma menina de cachos louros e soltos, uma luz que dançava sob a água, livre de qualquer amarra. Era um desejo proibido, uma parte de si mesma que ardia mais que o sol do meio-dia, guardada a sete chaves atrás de um rosto que sempre sorria conforme o esperado.

Tudo mudou na noite da grande festa. O som dos tambores ecoava pelo vale, uma pulsação que parecia bater no mesmo ritmo do seu coração ansioso. A aldeia estava em festa, as pinturas corporais brilhavam sob a luz das fogueiras, e o cheiro de ervas queimadas subia aos céus.

De repente, o movimento dos dançarinos pareceu desacelerar, como se o tempo tivesse decidido parar. Ele surgiu da penumbra, carregando uma aura que não pertencia à tribo. Era o "príncipe" dos seus sonhos, a visão que ela guardava em segredo. Quando os olhos dele cruzaram o círculo e encontraram os dela, a música ao redor silenciou. Ele não olhou para o cabelo negro, nem para os adornos rituais; ele olhou para o lugar onde ele via, por baixo de tudo, a menina dos cachos louros.

Mais tarde, ela fingiu buscar água no rio. Ele a seguiu, murmurando que esquecera algo na embarcação. À beira da correnteza, o silêncio era absoluto. Sem dizer nada, suas mãos grandes e gentis desenrolaram um fio delicado. Eram pérolas. Ele as colocou devagar, contornando o pescoço dela. O toque frio das pérolas contra a pele quente fez um arrepio percorrer seu corpo.

— Para a dona de uma beleza que só os sonhos conseguem traduzir — ele sussurrou.

Naquela noite, ela adormeceu em sua rede, com o peito apertado pela intensidade do que vivera. Ao despertar com o primeiro raio de sol, o coração martelava contra as costelas. Ainda grogue, ela levou a mão ao pescoço, esperando encontrar apenas a própria pele. Mas seus dedos encontraram algo sólido, frio e perfeitamente polido. As pérolas estavam lá.

O choque foi maior do que qualquer medo. O colar era a prova. O sonho não havia terminado; ele tinha deixado uma marca. Sem hesitar, ela correu para o rio. Ao chegar à margem, ofegante, ela se inclinou sobre a água. Ali, no reflexo, ela viu o rosto do príncipe novamente. O desejo foi tamanho, uma fome de liberdade e de amor, que ela não pensou duas vezes: mergulhou.

O impacto da água gelada foi um choque. Ela buscou o reflexo, buscou a imagem, buscou o seu amor. Mas o rio, soberano, reclamou o que era dele. Ela rompeu a superfície, buscando o ar e buscando o colar. Mas o pescoço estava nu. As pérolas haviam se dissolvido na correnteza, levando consigo o príncipe e a prova física de sua fuga.

Ela emergiu em silêncio. O colar se fora, o príncipe se fora, mas a marca daquela vivência ficou gravada em sua alma. Ela sabe que carregará essa saudade pelo resto da vida — uma cicatriz de luz de um momento em que, por um breve instante, ela foi exatamente quem sempre sonhou ser.

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