As margens da lembrança
| Conto breve contemporâneo | Pequenas histórias para entender a vida | Manoel R. LeitePublicado em 19 de Abril de 2026 ás 05h 27min
A primeira vez que Helena voltou à antiga rodoviária não foi por vontade. Foi porque o ônibus para o bairro novo atrasara quase uma hora e, sem alternativa melhor, precisou esperar sentada num banco de cimento que conservava o mesmo frio de muitos anos antes. Ao redor, a cidade já não era a mesma. Havia placas mais luminosas, uma farmácia onde antes funcionara uma papelaria, vendedores com maquininhas penduradas no peito e um movimento apressado que parecia não reconhecer ninguém. Ainda assim, alguma coisa resistia. Não no concreto, nem nas lojas, nem na pintura gasta dos guichês. Resistia no ar, naquela mistura de partida e demora que só certos lugares sabem guardar.
Ela ajeitou a bolsa sobre o colo e olhou para o relógio sem verdadeira necessidade. Aos cinquenta e seis anos, aprendera que alguns atrasos não pertencem ao transporte. Vêm de dentro. Chegam quando um rosto, um cheiro, um ruído qualquer empurra a memória para perto da superfície. E naquele fim de tarde bastou o som de um motor mais antigo, seguido pelo estalo metálico de uma porta mal fechada, para que ela se visse de novo com dezenove anos, uma mala pequena, um vestido azul claro e a pretensão silenciosa de que o mundo a esperava com alguma delicadeza.
Naquela época, a rodoviária lhe parecera enorme. Não pela arquitetura, que nunca tivera grandeza, mas porque o coração jovem costuma ampliar os lugares onde toma decisões. Helena partira numa manhã de janeiro para estudar magistério em outra cidade. A mãe chorara pouco, mais por contenção do que por força. O pai, homem de poucas palavras, segurara a alça da mala até o último momento, como se aquele gesto adiasse a distância. E Raul, encostado perto da mureta lateral, fingira naturalidade enquanto apertava entre os dedos um envelope pardo.
Ela ainda lembrava.
_ Você só vai abrir quando chegar - ele dissera.
_ E se eu abrir antes?
_ Vai estragar o que eu pensei.
_ Nem sei se gosto do que você pensa.
_ Isso é mentira._
Ela sorrira, mas não respondera de imediato. Raul tinha esse efeito incômodo sobre ela. Fazia com que as frases mais simples parecessem esconder outras por baixo. Não era bonito de modo evidente, nem falava como os rapazes que se esforçavam para impressionar. Havia, no entanto, uma firmeza tranquila no seu jeito de estar parado, de olhar, de não disputar atenção com o mundo.
_ Você vai mesmo me escrever? - perguntara ele.
_ Se a cidade nova não me transformar numa pessoa importante demais. Estou brincando. – Completou com um sorriso esperançoso.
Ela se calara por um segundo, depois respondera com a leveza de quem teme comprometer o próprio destino:
_ Vou escrever._
Raul assentira, mas não parecera convencido.
_ Carta de verdade ou recado curto?
_ Depende da saudade._
_ Então vou torcer para você sentir muita.
_ Isso é bonito ou egoísta?
_ Os dois.
O ônibus chegara antes que a conversa amadurecesse. E certas conversas, quando interrompidas na juventude, não envelhecem. Permanecem com a mesma roupa, a mesma temperatura, a mesma suspensão.
Helena saiu daquela cidade, estudou, trabalhou, casou-se depois com um homem bom e sério chamado Mauro, criou duas filhas, viu o casamento desmanchar-se sem escândalo e sem reparo, enterrou a mãe, enterrou o pai, acompanhou o crescimento das meninas, viveu o tipo de vida que não cabe em frase breve. Durante muito tempo, quase não pensou em Raul. Ou pensou sem admitir. Às vezes, ao dobrar roupas, ao atravessar uma rua menos movimentada, ao ouvir determinada música no rádio, surgia a lembrança rápida de uma mureta, de um envelope pardo, de uma promessa de carta que talvez tivesse falhado antes mesmo de partir.