As estrelas são navios em náufragos
Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 13 de Fevereiro de 2026 ás 21h 38min
O céu,
este vasto azul escuro,
não é meramente ar rarefeito.
É um mar.
Um oceano secreto
onde o dia afunda
e a noite navega sem velas.
As nuvens são as ondas lentas
de uma maré invisível,
e o silêncio
é o som da profundidade,
a pressão que esmaga o comum.
E as estrelas,
ah, as estrelas,
pequenos pontos de luz
teimosos na escuridão.
Não são faróis, não.
São destroços.
Navios de eras passadas,
embarcações de fogo e sonho,
que partiram de portos esquecidos,
portos que a memória da Terra já não alcança.
Eles singraram,
talvez em busca de ilhas feitas de cristal,
ou talvez apenas guiados pelo impulso cego da existência.
Agora, estão em naufrágio.
Um naufrágio eterno,
sem pranchas de salvação visíveis,
sem gritos que cheguem até nós.
Estão presos,
fixos no tecido do infinito,
cada brilho
um lampejo final de madeira rachada,
um mastro quebrado
apontando para um sul inexistente.
São poesias
que ninguém jamais escreveu completamente.
Versos cósmicos
perdidos nas correntes da relatividade.
A luz que vemos
é a tinta gasta
de uma carta de amor enviada
há milhões de anos,
uma mensagem que chegou,
mas cujo significado
se dissolveu no trajeto.
Olhamos para cima,
buscando mapa, buscando porto seguro.
Mas o mar oculto
apenas nos devolve
o reflexo da nossa própria solidão.
Somos a praia,
escutando o murmúrio longínquo
das caravelas afundadas,
o eco mudo
de todas as viagens
que nunca tiveram um fim feliz.
E o céu continua a ser esse mar,
profundo e frio,
e nós,
marujos terrestres,
apontando dedos para os fantasmas brilhantes
desses navios em poesia
que se afogam lentamente
na imensidão.
Navegantes quebrados
sob um céu que é tudo o que resta
de um oceano esquecido.