As Cartas que Não Escrevo Mais

| | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Isolti Cossetin
Publicado em 15 de Maio de 2026 ás 18h 08min

As Cartas que Não Escrevo Mais

Outro dia encontrei uma caixa antiga no fundo do armário.
Daquelas caixas que guardam o que já não cabe na vida, mas também não conseguimos jogar fora.

Havia fotografias amareladas, um botão sem camisa, uma fita azul desbotada e cartas. Muitas cartas.

Fiquei algum tempo olhando para elas antes de tocar. Como quem teme acordar alguma coisa adormecida.

Hoje quase ninguém escreve cartas.
Mandamos mensagens rápidas, abreviadas, distraídas. Palavras que chegam depressa demais e desaparecem com a mesma velocidade. Tudo muito imediato. Muito prático. Muito vazio, às vezes.

As cartas não.
As cartas tinham o peso do tempo.

Havia uma demora bonita entre sentir e dizer. Entre escrever e receber. E talvez fosse justamente essa espera que aprofundasse os afetos.

Lembro-me da escolha do papel, da letra cuidadosamente desenhada, do medo de errar demais e revelar demais o coração. Porque toda carta era um pequeno risco emocional.

A gente colocava dentro dela alguma coisa de si: perfume, saudade, esperança, silêncio.

E depois vinha a espera.

Ah, a espera…

Talvez os jovens de hoje nunca entendam completamente a emoção de ouvir o portão bater e imaginar, por um segundo, que o carteiro pudesse estar trazendo notícias capazes de mudar o dia — ou a vida.

As cartas envelheciam conosco.
Ganharam manchas, dobras, cheiro de passado. Mas continuavam ali, sobrevivendo ao tempo com uma dignidade que certas lembranças possuem.

As mensagens de hoje morrem sem velório.
Apagam-se num toque.
Somem junto com celulares trocados, senhas esquecidas, conversas arquivadas.

As cartas não.
As cartas resistem.

Talvez por isso doa tanto perceber que já não escrevo mais nenhuma.

Não porque me faltem palavras.
As palavras continuam aqui.

Mas porque o mundo desaprendeu a esperar por elas.

Comentários

Isolti se utiliza das "cartas" como uma metáfora reflexiva para tecer uma crítica sensível à superficialidade e à pressa que caracterizam a comunicação nos dias atuais. Isolti transforma um desabafo pessoal numa crítica social e filosófica sobre a forma que consumimos o tempo e os afetos e o que sacrificamos em nome da conveniência da pressa!

Lorde Égamo | 15/05/2026 ás 19:09
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