As aguas que descem...
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 28 de Março de 2026 ás 18h 52min
As águas que descem dos teus olhos
não são apenas lágrimas —
são rios antigos,
cansados de guardar segredos.
Escorrem lentas pelas margens do teu rosto,
como quem conhece o caminho da dor
e já não tenta fugir dela.
Cada gota carrega um nome,
uma lembrança que não quis partir,
um adeus que ficou suspenso no tempo.
Teu olhar, antes céu,
agora é um horizonte nublado,
onde a luz se perde
antes mesmo de nascer.
E eu vejo —
vejo o silêncio que te habita,
vejo o peso das palavras não ditas,
afundadas no fundo da tua alma
como pedras que ninguém ousa tocar.
As águas que descem dos teus olhos
sussurram histórias que o mundo não ouviu,
canções quebradas,
promessas que o vento levou sem cuidado.
E ainda assim,
há beleza na tua tristeza —
uma beleza quieta,
como a de um lago profundo
que guarda estrelas mortas em seu reflexo.
Mas dói.
Dói como um inverno que não termina,
como um dia que se recusa a amanhecer.
Se eu pudesse,
recolheria cada lágrima tua
com as mãos abertas,
e as devolveria ao céu
em forma de esperança.
Mas só posso ficar aqui,
à beira desse rio que nasce em ti,
assistindo as águas passarem —
sabendo que, dentro delas,
também vai um pedaço de mim.