Arco-íris, onde a infância mora
| | 2026/9 Antologia O invisível que a palavra revela | INGRID MOHRPublicado em 30 de Setembro de 2026 ás 23h 51min
Arco-Íris, onde a infância mora
Há lembranças que o tempo não apaga. Apenas as guarda em algum lugar silencioso da alma, esperando que uma palavra, um cheiro ou uma imagem as desperte. Então, de repente, elas voltam — inteiras, coloridas, como se nunca tivessem partido.
Arco-Íris era o nome do sítio onde fomos crianças. Para nós, porém, aquele lugar era muito mais do que terra, árvores e caminhos. Era o nosso pequeno universo, o lugar onde a imaginação não conhecia limites e onde os dias pareciam maiores.
Éramos duas irmãs, parceiras de descobertas, companheiras de aventuras e amigas inseparáveis. O terreiro irregular, cortado por caminhos de terra, parecia imenso aos nossos olhos. Cada árvore podia ser uma casa, um mercado, um açougue. Bastava escolher e começar a brincar. E, assim, todos os dias inventávamos um mundo que existia somente para nós.
Quando a chuva deixava a terra úmida, o barro passava pelas nossas mãos e ganhava novas formas. Fazíamos panelinhas, bichinhos, comidinhas e tudo aquilo que a imaginação pudesse criar. Não precisávamos de brinquedos sofisticados. Tínhamos a terra, as árvores, o céu e, sobretudo, uma à outra.
Depois, havia o céu.
Sentávamos para observá-lo enquanto as nuvens lentamente se transformavam. Em seus contornos, encontrávamos animais, pessoas, casas e histórias. O céu parecia brincar conosco, oferecendo desenhos que só os nossos olhos de criança conseguiam enxergar.
E, quando a chuva ia embora e o sol reaparecia, surgia o arco-íris.
Suas cores atravessavam o céu como uma promessa silenciosa de que havia beleza mesmo depois da chuva. Hoje penso que não poderia existir nome mais bonito para aquele lugar. Arco-Íris combinava com a nossa infância porque havia cor até na simplicidade, magia até nos dias comuns.
Mas a noite também fazia parte daquele universo.
Quando o escuro chegava, os ruídos pareciam maiores, as sombras ganhavam formas e a imaginação inventava criaturas onde talvez só houvesse folhas se movendo ao vento. E então acontecia algo simples: procurávamos a mão uma da outra.
O medo não desaparecia completamente, mas ficava menor.
Talvez porque, desde cedo, aprendemos que algumas coisas se tornam mais fáceis quando não precisamos enfrentá-las sozinhas.
Hoje, quando volto àquele tempo pela memória, percebo que o maior encanto do Arco-Íris não estava apenas nas árvores, no barro, nas nuvens ou naquele arco colorido depois da chuva.
Estava em nós.
Minha irmã é guardiã de uma parte da minha história que ninguém mais poderia contar como nós. Ela estava lá quando nossos pés se sujavam de terra, quando nossas mãos moldavam o barro, quando o céu se transformava diante dos nossos olhos e quando o medo da noite nos fazia buscar uma na outra o pequeno abrigo de uma mão.
Somos testemunhas de uma infância que só existe inteira porque foi vivida juntas.
O tempo levou os dias, mudou os caminhos, talvez tenha apagado algumas marcas daquele terreiro. Mas há coisas que o tempo não consegue alcançar. A cumplicidade permanece. As lembranças permanecem. O amor permanece.
E, às vezes, basta fechar os olhos.
Ainda vejo o Arco-Íris depois da chuva. Vejo suas cores atravessando o céu. Vejo duas meninas correndo pelo terreiro, chamando uma pela outra, com os pés descalços e o coração inteiro, sem saber que aquele instante tão simples seria guardado para sempre.
Hoje eu sei.
Aquele arco-íris não estava apenas no céu.
Estava na nossa infância, na nossa cumplicidade, na certeza de que nunca estaríamos completamente sozinhas.
Estava em nós.
E talvez seja esse o milagre das lembranças: elas nos devolvem aquilo que o tempo levou, não como quem volta ao passado, mas como quem reencontra dentro de si uma parte que nunca deixou de existir.
Enquanto uma de nós puder lembrar, aquelas duas meninas continuarão correndo pelo terreiro do Arco-Íris.
Livres.
Felizes.
De mãos dadas.
E eternamente juntas.