Ao meu Eu do passado e do futuro

Poemas | | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 03 de Agosto de 2026 ás 10h 24min

Ao Meu Eu Lírico do Passado e do Futuro
 
Rosy Neves
 
Ó meu eu, que repousa nas margens antigas do Bósforo invisível,
onde as gaivotas costuram o silêncio
com linhas de vento e sal,
ainda escuto teus passos
nas pedras gastas dos séculos.
 
Tu carregavas nos olhos
o peso das luas sem nome,
e escondias no peito
um jardim de tulipas
que jamais deixou de florescer,
mesmo quando o inverno
vestiu a alma de cinzas.
 
Não chores pelas embarcações
que o tempo levou.
O mar conhece caminhos
que nenhum homem consegue desenhar.
 
E tu,
meu eu do futuro,
que caminhas entre constelações
como um dervixe girando
ao redor da luz eterna,
lembra-te de quem foste.
 
Guarda, nas mãos,
a antiga lâmpada da esperança.
Ela ainda acende
quando todas as estrelas
parecem adormecer.
 
Se um dia o destino
te conduzir novamente
às margens desse rio invisível,
abraça o meu passado
como quem encontra
um velho amigo esquecido.
 
Porque somos o mesmo poema
escrito em duas épocas,
o mesmo pássaro
voando entre o ontem e o amanhã,
o mesmo coração
atravessando desertos,
mares
e jardins perfumados.
 
E quando a última aurora
beijar os minaretes do infinito,
que o vento diga baixinho:
 
— Nenhum amor verdadeiro morre.
Ele apenas aprende
a atravessar a eternidade.

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