AO AMOR QUE NÃO CHEGOU
| Cartas | 2026/8 Antologia A quem ainda escrevo? | Silvia Dos Santos AlvesPublicado em 22 de Agosto de 2026 ás 09h 51min
Meu amor,
não sei se posso chamar você assim.
Afinal, você nunca chegou.
Não houve primeiro encontro, primeiro beijo, mãos entrelaçadas ou uma fotografia nossa para guardar no fundo de uma gaveta. Não tivemos domingos preguiçosos, viagens planejadas, brigas bobas ou pedidos de desculpas antes de dormir.
Não tivemos nada disso.
E, ainda assim, por muito tempo, você foi uma das coisas mais presentes na minha vida.
Eu inventei você sem perceber.
Imaginei seu jeito de me olhar quando eu estivesse falando demais. Imaginei sua mão procurando a minha no meio de uma multidão. Imaginei seu abraço nos dias em que eu chegaria em casa cansado do mundo. Imaginei até nossas pequenas discussões, porque amar alguém também é aprender a conviver com aquilo que não é perfeito.
Você existia nas possibilidades.
E talvez tenha sido justamente isso que tornou tão difícil deixar você ir.
Como se despedir de alguém que nunca esteve aqui?
Durante muito tempo, esperei.
Acreditei que, em algum momento, a vida colocaria você diante de mim. Talvez numa esquina qualquer, numa conversa por acaso, numa mensagem inesperada ou naquele encontro que as histórias de amor gostam de chamar de destino.
Eu procurava você em rostos desconhecidos.
Em alguns, achei que poderia ser.
Em outros, tentei fazer caber.
E talvez esse tenha sido meu maior erro: tentar transformar qualquer presença na resposta para uma ausência que só existia porque eu tinha criado um lugar para você.
Você não chegou.
E eu demorei a entender que isso também era uma resposta.
Houve noites em que me perguntei o que havia de errado comigo. Se eu não era interessante o bastante, bonita o bastante, boa o bastante para que alguém escolhesse ficar.
Hoje eu sei que não era sobre isso.
Nem todo amor que desejamos encontra caminho até nós.
Alguns simplesmente não acontecem.
E não há culpa nisso.
Talvez você esteja vivendo sua própria história em algum lugar. Talvez tenha amado outra pessoa, construído uma casa, aprendido outros nomes para a felicidade. Talvez nunca saiba que alguém, em algum momento, imaginou você com tanta delicadeza.
Tudo bem.
Não preciso que saiba.
Esta carta não é um pedido para que você apareça.
É uma despedida para aquilo que imaginei que seríamos.
Despedi-me das conversas que não tivemos, dos lugares onde nunca fomos, das promessas que nunca fizemos.
E, pela primeira vez, não sinto que estou perdendo você.
Porque ninguém pode perder aquilo que nunca teve.
Estou apenas devolvendo ao mundo um sonho que guardei tempo demais.
Se um dia nossos caminhos se encontrarem, que seja sem expectativas.
Que eu possa olhar para você sem reconhecer o personagem que criei.
E que você possa me conhecer como eu sou, não como eu imaginei que seria para alguém.
Mas, se nunca acontecer, também está tudo bem.
Eu aprendi a não confundir espera com esperança.
Aprendi que o amor que não chegou não precisa ser uma ferida.
Pode ser apenas uma página em branco.
E talvez seja justamente nela que eu finalmente escreva uma história sobre mim.
Sem esperar por você.
Com carinho,
de quem um dia esperou pelo amor,
mas descobriu que também podia ser seu próprio destino.
Silvia Santos