ANATOMIA DE UM SILÊNCIO
Poemas | Poesia Existencial | Isolti CossetinPublicado em 06 de Maio de 2026 ás 08h 19min
ANATOMIA DE UM SILÊNCIO
Há dores
que não aprendem a falar.
Ficam.
Habitam um lugar sem nome
entre o que se mostra
e o que se suporta.
Não deixam marcas na pele,
não pedem curativo,
não interrompem o dia.
Mas roem.
Como um silêncio prolongado
que ninguém percebeu,
como uma palavra engolida
que nunca deixou de existir.
Sigo.
Cumpro horários,
respondo perguntas,
sorrio quando esperam.
Por fora,
tudo em ordem.
Por dentro,
um mundo em desalinho.
Há dias em que a dor se deita ao meu lado
e respira no mesmo ritmo,
como se fôssemos uma só matéria.
Não grita.
E talvez por isso
ninguém a escute.
Mas ela pulsa.
Em pequenas ausências,
em cansaços sem motivo aparente,
em lembranças que chegam
sem pedir licença.
Aprendi a caminhar com ela,
não por escolha,
mas por falta de alternativa.
Carrego.
E, ainda assim,
há algo em mim
que resiste ao desaparecimento.
Algo que insiste
em transformar peso em palavra,
silêncio em verso,
invisível em presença.
Porque aquilo que não se vê
não deixa de existir.
Apenas aprende
a viver
em segredo.