Amigos até debaixo d'água

| Conto | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | INGRID MOHR
Publicado em 04 de Maio de 2026 ás 15h 11min

Era um sábado daqueles em que o mundo parece maior do que de costume. O sol brilhava alto e o vento soprava leve, como se convidasse para alguma aventura. Mateus, de 12 anos, saiu de casa com sua bicicleta e um grupo de amigos, decidido a explorar um lugar distante que poucos da sua idade tinham coragem de ir.

O destino era uma ponte antiga, esquecida pelo tempo, que cruzava um pequeno rio de águas rápidas. Para chegar até lá, pedalaram por estradas de terra, trilhas estreitas e até um trecho de mato fechado. Quando finalmente avistaram a ponte, ficaram em silêncio por alguns segundos — não por falta de palavras, mas pelo tamanho daquilo que tinham diante de si.

Era alta. Muito alta.

Lá embaixo, o rio corria inquieto, desviando de pedras e criando redemoinhos que pareciam brincar com o perigo.

— Imagina pular daqui… — disse um dos meninos, rindo, sem realmente considerar a ideia.

Mas Mateus considerou.

Ele observou o cenário com olhos atentos, sentindo aquela mistura estranha de medo e empolgação crescer dentro do peito. A bicicleta, sua companheira inseparável, estava ali ao lado, como se também aguardasse uma decisão.

— Eu vou — disse ele, de repente.

Os amigos riram, achando que era brincadeira. Mas quando Mateus subiu na bicicleta e começou a se posicionar na beira da ponte, o riso virou preocupação.

— Você tá maluco?!
— É muito alto!
— Mateus, não faz isso!

Mas ele já tinha decidido. O coração batia forte, como um tambor apressado. Em sua cabeça, aquilo parecia uma ideia brilhante — um salto épico, algo que contaria para sempre.

Respirou fundo.

E foi.

Por alguns segundos, o mundo ficou em silêncio. O vento cortando o ar, o corpo em queda livre, a sensação de liberdade misturada com um arrependimento que chegou tarde demais.

Então veio o impacto.

A água não era macia como ele imaginava. Foi como bater em uma parede líquida. Mateus afundou, desorientado, ainda agarrado à bicicleta. A correnteza puxava com força, tentando levá-lo para longe.

O pânico veio rápido.

Ele tentou subir, mas a bicicleta parecia pesada demais. Por um instante, pensou que não conseguiria.

Na ponte, os amigos gritavam.

Sem hesitar, dois deles correram pela margem e desceram até o rio. Outro procurava um galho grande, qualquer coisa que pudesse ajudar.

— Segura! Segura firme! — gritavam.

Mateus lutava contra a água, sentindo o cansaço tomar conta. Mas então viu um dos amigos estendendo um galho em sua direção.

Com a última força que tinha, agarrou.

A correnteza ainda puxava, mas agora ele não estava sozinho.

Um puxava daqui, outro ajudava dali, até que, finalmente, conseguiram tirá-lo da água. Mateus caiu na margem, tossindo, tremendo, mas… vivo.

E a bicicleta?

Também estava ali.

Molhada, arranhada, mas inteira — como se tivesse participado da aventura junto com ele.

Por alguns minutos, ninguém disse nada. Só o som da respiração pesada e da água correndo ao fundo.

Até que um dos amigos começou a rir.

E outro também.

E, logo, todos estavam rindo — daquele riso nervoso, aliviado, que vem depois do susto.

Mateus olhou para a ponte, depois para o rio, e finalmente para seus amigos.

— Acho que… foi uma ideia meio ruim — disse, ainda ofegante.

— Meio? — responderam, em coro.

Ele sorriu.

Naquele dia, Mateus aprendeu duas coisas importantes: que coragem sem pensar pode virar perigo… e que ter bons amigos pode fazer toda a diferença entre um final trágico e uma boa história para contar.

E essa, com certeza, ele nunca esqueceria.

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